O mercado futuro de açúcar em Nova York encerrou a sexta-feira cotado a 14.69 centavos de dólar por libra-peso, uma queda de 28 pontos em relação à semana anterior, equivalente a pouco mais de 6 dólares por tonelada. Todos os meses de negociação, de outubro/26 até outubro/28, também fecharam em queda, alternando entre 18 e 31 pontos de baixa, ou de 4 a 7 dólares por tonelada.
O real, por sua vez, valorizou-se 1.26% na semana frente ao dólar, que encerrou cotado a 4.8958 — uma das cotações mais baixas desde janeiro de 2024. A combinação dos dois fatores — NY em queda e real apreciado — derrubou os valores de exportação base Centro-Sul em 55 reais por tonelada para a 26/27, 56 reais para a 27/28 e 30 reais para a 28/29, apenas na semana.
Para a surpresa de absolutamente ninguém, os fundos especulativos reduziram parte de sua posição vendida em 41,214 lotes, perfazendo agora um short líquido de 87,289 lotes, conforme o COT (Commitment of Traders), publicado pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission) agência americana reguladora dos mercados de commodities com base na posição de terça-feira, 5 de maio. Ocorre, que de lá para cá o mercado caiu mais 3.5% na quarta-feira e 1.8% na quinta — partindo de 15.37 centavos no fechamento da terça —, o que sugere fortemente que os fundos, embora tenham liquidado parte da posição vendida até a data de corte do CFTC, certamente adicionaram novos shorts ao longo da semana, em especial na quarta e quinta.
É a fotografia precisa de um mercado que perdeu a bússola, o mapa e, de quebra, a vontade de procurar os dois. Numa segunda-feira o petróleo sobe 20 dólares porque alguém, em algum lugar do Oriente Médio, fez cara feia para uma câmera. Na terça, cai os mesmos 20 dólares porque outro alguém, em outro lugar, acenou com um aperto de mão. Trump anuncia, em letras garrafais e exclamações redundantes, que a guerra acabou — antes mesmo do café da manhã. Ao meio-dia, o Irã desmente categoricamente. À tarde, as negociações estão "indo muito bem, talvez as melhores negociações de todos os tempos". À noite, voltaram à estaca zero. No dia seguinte recomeça tudo, com a mesma seriedade com que se acompanha um folhetim mexicano: ninguém acredita no enredo, mas todo mundo continua assistindo porque precisa saber quem atira em quem no próximo capítulo.
Construir um cenário minimamente coerente nessas condições deixou de ser análise de mercado e virou exercício de paciência franciscana. O analista que tenta projetar fundamentos hoje corre sério risco de ver sua tese envelhecer entre o "bom dia" e o "como vai a família". E não há o menor constrangimento em admitir que não sabemos para onde isso tudo caminha — pelo contrário, talvez seja a única afirmação genuinamente honesta que se possa fazer no momento. A quantidade de variáveis simultâneas em jogo — geopolítica errática, política monetária ambígua, clima imprevisível, Trump em modo improviso permanente — transformou qualquer prognóstico assertivo em chute disfarçado de análise técnica, geralmente acompanhado de gráficos coloridos para emprestar credibilidade ao palpite.
Quem aparece na televisão dizendo com convicção para onde o mercado vai nas próximas semanas está, na melhor das hipóteses, sendo otimista quanto à própria capacidade preditiva. Na pior, está vendendo um curso. Vamos, portanto, amargar ainda algumas boas semanas nesse mesmo compasso de sobe-e-desce sem direção definida — o que, pensando bem, é exatamente o tipo de mercado que recompensa quem tem disciplina de hedge e pune quem confunde convicção com adivinhação.
O que pode mudar essa percepção é o tamanho efetivo da safra brasileira do Centro-Sul. Os números ainda estão desencontrados, mas o consenso atual aponta para algo em torno de 635 milhões de toneladas de cana — com viés mais otimista em relação ao volume de moagem. Ainda é cedo, e muita água há de rolar nesse moinho. Um dado, porém, chamou atenção em meio a uma análise que vínhamos conduzindo: nos últimos três meses — fevereiro, março e abril — o contrato de açúcar na bolsa de Nova York negociou 13,404,790 contratos. Um volume extraordinariamente alto. Para efeito comparativo, no mesmo trimestre do ano passado foram negociados pouco mais de 10 milhões de contratos.
O salto é expressivo e não passa despercebido. Volume dessa magnitude é sinônimo de fixação em ritmo acelerado, algo que já vínhamos sinalizando. Janeiro fechou com 38,24% das fixações da safra 26/27 concluídas, ou aproximadamente 13 milhões de toneladas. Agora, os números preliminares apontam para algo próximo de 22 milhões de toneladas fixadas até o final de abril. Os dados ainda estão sendo apurados, mas se a estimativa se confirmar, estaríamos diante de aproximadamente 60% da safra 26/27 já fixada — o que ajuda a explicar por que o mercado teve tanta dificuldade em sustentar os movimentos de alta recentes.
Na avaliação técnica do nosso colaborador Marcelo Moreira, o contrato julho/26 não conseguiu manter a tendência de alta e encerrou a semana abaixo da média móvel dos 200 dias, que se encontra em 14.92 centavos de dólar por libra peso. Com esse fechamento ruim, o julho/26 encontra agora suportes a 14.59, 14.42, 13.86 e finalmente em 13.42 centavos de dólar por libra-peso. Importante notar que o contrato conseguiu encerrar a semana acima da média móvel dos 100 dias, em 14.42 centavos. Para retomar a tendência de alta, será necessário um fechamento acima dos 14.92 centavos, com as próximas resistências em 15.47, 15.70 e 16.09 centavos de dólar por libra-peso.
Uma multidão de traders, brokers, executivos de trading, originadores e curiosos de toda sorte desembarca neste final de semana em Nova York para a tradicional semana do açúcar, que se inicia oficialmente na segunda-feira e culmina com o aguardado Jantar de Gala na quarta-feira à noite. Serão dezenas, talvez centenas, de reuniões protocolares, almoços apressados, cafés intermináveis e conversas de elevador, todas girando obstinadamente sobre o mesmo tema — sempre o mesmo tema —, com variações estilísticas mínimas: alguém pergunta para onde vai o mercado, alguém responde com aquela meia-frase diplomática que não compromete ninguém, e ambos seguem para o próximo encontro repetir o ritual com outra dupla de interlocutores. Ao final da semana, todos terão ouvido rigorosamente as mesmas opiniões pronunciadas por pessoas diferentes, mas saem com a sensação reconfortante de terem feito um intenso trabalho de inteligência de mercado. Não espere, portanto, nada de particularmente animador vindo das telas durante esses dias — historicamente, semanas como essa servem mais para pavimentar relacionamentos comerciais e renovar cartões de visita do que para imprimir direção aos preços.
Se serve de algum consolo para a turma dos altistas — que anda precisando de toda e qualquer migalha de esperança disponível —, há um dado curioso a ser lembrado: faz 14 anos que o preço mais baixo do ano não acontece durante a semana do Sugar Dinner. Não é exatamente um indicador fundamentalista robusto, tampouco figura nos manuais de análise técnica, mas em mercado de boi parado, qualquer estatística serve de muleta — e essa, ao menos, tem a vantagem de vir acompanhada de bom vinho e boa companhia.
Restam poucas vagas para o Curso Presencial “A Inteligência da Comercialização de Etanol no Mercado de Combustíveis. O curso vai ocorrer dias 20 e 21 de maio no Hotel Travel Inn Paulista Wall Street, em São Paulo – SP, das 09 às 17 horas. Saiba mais acessando o link a seguir: https://api.whatsapp.com/send/?phone=5511963700000
Bom final de semana
Arnaldo Luiz Corrêa