MERCADO REALIZA, MAS FUNDAMENTOS SÃO CONSTRUTIVOS

 

O mercado futuro de açúcar em Nova York encerrou a semana em forte queda. O vencimento outubro fechou cotado a 17.40 centavos de dólar por libra-peso, acumulando retração de 75 pontos na semana — pouco mais de US$ 16.50 por tonelada. O março, que assume agora o posto de principal referência do mercado, encerrou a 18.28 centavos de dólar por libra-peso, com queda semanal de 87 pontos, ou pouco mais de US$ 19 por tonelada. Os vencimentos que espelham a safra 2027/2028 do Centro-Sul recuaram entre 49 e 85 pontos — aproximadamente US$ 11 a US$ 19 por tonelada —, enquanto na safra seguinte, a partir de maio de 2028, as perdas foram mais comedidas, com retração média próxima de US$ 4 por tonelada.

A semana foi marcada pelo contraste entre fundamentos ainda construtivos e uma correção técnica que se impôs aos preços. A segunda-feira começou com o petróleo em alta — o Brent tocou US$ 109.80 no intraday e fechou a US$ 105.68 depois de Trump sinalizar que o Irã queria negociar — e o real depreciado a R$ 5.1479. Na terça e na quarta, Nova York já cedia: a queda de 1.31% na quarta, para 17.71 centavos, foi lida como realização de lucros dos fundos.

Enquanto isso, a Índia reforçava o controle sobre seu mercado doméstico: autorizou a importação de até 1 milhão de toneladas sem tarifa (com compras efetivas estimadas bem abaixo disso, entre 300 e 600 mil toneladas), limitou a cota de exportação da quinzena a 1.35 milhão de toneladas e impôs teto de estoque aos grandes consumidores institucionais para segurar os preços na temporada de festivais. Por aqui, o Itaú BBA cortou em 400 mil toneladas sua estimativa de açúcar do Centro-Sul, para 38.9 milhões, citando excesso de chuva e ATR mais fraco — o que elevou o déficit global projetado para 2026/27 a 2.1 milhões de toneladas. Tem gente no mercado apostando garrafas de vinho que o Centro-Sul vai produzir menos de 38 milhões de toneladas de açúcar.

A correção ganhou força na quinta-feira, quando Nova York despencou 3.28%, para a casa dos 17.38 centavos, mínima de três semanas. O gatilho veio de Londres: o vencimento do contrato de outubro registrou entrega de 499 mil toneladas, salto de 91% sobre o ano anterior e sinal inequívoco de demanda física fraca — tudo isso com os fundos ainda carregando, pelo último divulgado pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission) agência americana reguladora dos mercados de commodities, 161,342 lotes líquidos comprados, o que mantinha vivo o risco de nova liquidação.

Do lado da oferta, o quadro seguiu apertado: no Paquistão, o ECC (Comitê de Coordenação Econômica) liberou apenas 200 mil toneladas para exportação, contra o pedido de 1 milhão das usinas — que alegam estoques de 2.6 milhões de toneladas e nova safra recorde, acima de 8 milhões —, e um novo levantamento apontou queda de 1.6% na área de cana em distritos-chave de Uttar Pradesh, reforçando o aperto estrutural indiano para 2026/27.

No fechamento, o petróleo recuou pela terceira sessão consecutiva — Brent a US$ 103.80 e WTI a US$ 101.10 — após a Arábia Saudita recuperar parte do oleoduto atingido pelos ataques Houthi, enquanto o etanol hidratado no Brasil seguia firme, com alta semanal de 2.28% e paridade de 61.9% frente à gasolina.

Enquanto o mercado tradicional de futuros segue sua rotina, um fenômeno novo começa a incomodar quem vive de gestão de risco nos EUA: os prediction markets — plataformas como a Kalshi em que as pessoas compram e vendem contratos vinculados à ocorrência de determinados eventos — passaram a oferecer apostas binárias sobre o preço de ajuste da soja e do milho, operando 24 horas por dia e sem os limites de posição que disciplinam os contratos futuros tradicionais. No açúcar ainda não tem, mas podem apostar (no próprio Kalshi, se quiserem) que isso poderá contaminar os mercados num futuro não muito distante.

Como a CME encerra o pregão às 14h15 (horário de Nova York) e essas plataformas continuam girando madrugada adentro, o temor — manifestado por 22 entidades do agro americano em carta à CFTC — é que o preço de reabertura passe a refletir o humor da torcida noturna em vez dos fundamentos de oferta e demanda. A CFTC, por sua vez, sinalizou o caminho oposto ao de mais controle: seu presidente anunciou uma agenda de desregulamentação e, como gesto concreto, passará a publicar o relatório Commitments of Traders duas vezes por semana a partir do fim de 2026 — mais fotografias do posicionamento do mercado, para quem sabe interpretá-las. Para quem faz hedge, a lição prática é simples: cautela redobrada com qualquer instrumento fora do circuito regulado tradicional e um raio-x de posicionamento mais frequente para afinar o timing das operações.

Na análise técnica, nosso colaborador Marcelo Moreira observa que o março-27 após registrar a máxima do contrato a 19.90 centavos no dia 10 de setembro, o papel encontrou forte resistência no topo da Banda de Bollinger da média móvel de 50 dias, que encerrou a semana a 20.46 centavos. Mesmo com o indicador estocástico fechando novamente em território sobrevendido, o março-27 encontra resistências a 18.98, 19.90 e 20.46 centavos, e suportes a 17.43, 16.57 e 16.00 centavos. A boa notícia: a tendência de alta permanece intacta enquanto o contrato se mantiver acima de 16.57 e 16.00 centavos — respectivamente as médias móveis de 100 e 200 dias.

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Bom final de semana

Arnaldo Luiz Corrêa

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