NINGUÉM CONTROLA, TODO MUNDO FIXA

O mercado de açúcar começou a semana levando um susto que veio de fora dele. A reeleição de Lula derrubou o real na segunda-feira, com o dólar chegando a bater R$ 5,6000 ao longo do dia, e o açúcar bruto em Nova York foi atrás: o março/27 caiu 5.6% e foi testar a casa dos 19 centavos de dólar por libra peso, o menor nível desde o começo de outubro. A conta é simples: dólar mais caro significa mais reais por tonelada para a usina, que aproveita para fixar, e essa venda acaba pesando sobre a cotação em Nova York. Nosso modelo indica que pelo menos 1.2 milhão de toneladas de açúcar foram fixadas pelas usinas nesta semana. Parabéns.

A manchete do último comentário (Ninguém Quebra Com Margem No Bolso) falava sobre isso e pode até soar agora como premonição deste escriba. Não foi. O conselho partia de uma constatação humilde: não temos o menor controle sobre o que vem pela frente. Não sabemos para onde vai o mercado, não sabemos para onde vai o dólar e, até outro dia, nem sabíamos quem seria o próximo presidente. O que está no radar de quem faz hedge é a margem, e margem se persegue com disciplina de monge, todo santo dia. Ironia das ironias: olhando apenas o fato pontual, o resultado da eleição deu às usinas, já no dia seguinte, uma fixação pelo menos 100 reais por tonelada melhor – em NY, com o dólar parado, seria uma alta de algo como 80 pontos. Quem diria que a urna ia virar instrumento de hedge – e dos bons: sem os horrorosos acumuladores. Como encerramento desta sexta-feira, o ganho foi de 120 reais por tonelada para as fixações da safra 27/28 e 114 reais por tonelada para a 2028/29.

Passado o susto, o mercado foi se recompondo aos poucos: quatro pregões seguidos de alta, enquanto o dólar devolvia parte da perda, voltava para perto de R$ 5,3500 e encerrou a semana cotado a R$ 5,4450. Nova York fechou a semana a 19.36 centavos de dólar por libra peso no março/27, uma retração de 89 pontos no acumulado, ou quase 20 dólares por tonelada. Os demais vencimentos caminharam na mesma direção, com recuos médios de 72 pontos, perto de 16 dólares por tonelada.

O piso de 19 centavos segurou no primeiro teste, mas vale notar que toda vez que o março/27 se aproxima de 19.50 aparece venda de produtor segurando a alta. Os spreads seguem invertidos, com março/maio em 53 pontos e maio/julho em 39 pontos, ou seja, o vencimento mais curto vale mais que o seguinte, sinal de que o mercado continua pagando pelo açúcar de entrega mais próxima. Os fundos, que vinham aumentando a aposta na alta semana após semana, deram uma recuada e cortaram 40,688 lotes da posição comprada, que ainda assim segue em quase 181 mil lotes líquidos. É uma posição grande o bastante para preocupar caso o mercado perca os 19 centavos, porque liquidação de fundo costuma vir em bloco.

Do lado brasileiro, os números do Mapa para a segunda quinzena de setembro confirmaram o que o mercado já desconfiava. A moagem foi de 42.42 milhões de toneladas, queda de 3.06%, com 3.06 milhões de toneladas de açúcar (-5.42%) e 2.18 bilhões de litros de etanol (-7.56%). No acumulado da safra a moagem soma 496.1 milhões de toneladas, apenas 1.6% a menos que no ano passado; a diferença está no mix: o açúcar acumula 29.4 milhões de toneladas, 13.4% abaixo, enquanto o etanol chega a 26.3 bilhões de litros, 8.6% acima. Com o Brent rodando acima de US$ 100 por barril, a usina segue escolhendo o etanol sempre que pode. Para completar, a chuva voltou ao Centro-Sul, com previsão de mais água ligada ao El Niño, o que tira dias de moagem e empurra para frente a produção de açúcar. Foi justamente essa previsão que deu o empurrão final na alta de quinta-feira.

Na Índia a safra começou com o pé esquerdo. O governo esticou de 31 de outubro para 31 de dezembro o prazo para importar 1 milhão de toneladas de açúcar bruto sem tarifa, e os números explicam a decisão: estoque de cerca de 1.5 milhão de toneladas no fim de outubro contra uma demanda estimada em 2.3 milhões em novembro, em plena temporada de festas, com o preço interno encostando na paridade de importação – isto é, já quase compensa trazer açúcar de fora. A moagem em Uttar Pradesh atrasou por causa dos campos encharcados e em Maharashtra houve briga pelo preço da cana; ainda assim, já são 107 usinas operando e cerca de 487 mil toneladas produzidas até o dia 28, contra 60 mil no mesmo período do ano passado. As petroleiras indianas também esticaram para 5 de novembro o prazo da licitação de etanol, de 11 a 12 bilhões de litros, e o resultado vai dizer quanto da cana indiana vira etanol em 2026/27 e, portanto, quanto sobra de açúcar para exportar. Nossa aposta é que as exportações serão nulas.

Mercados exageram para cima e para baixo; moderação nunca foi o forte deles, e a segunda-feira foi só mais um capítulo. A vantagem de ter mais idade – além de estacionar em vaga pra idoso mais perto do elevador no shopping – é já ter visto esse filme várias vezes e saber que o roteiro é sempre o mesmo. O mercado estressa por dois ou três dias, perde a voz de tanto gritar e volta ao normal como se nada tivesse acontecido. Momentos de pânico são excelentes para ganhar dinheiro. É como vender lenços quando todo mundo está chorando: o produto é o mesmo, só a fila é que cresce.

Na leitura técnica de Marcelo Moreira, o vencimento março/27 encerrou a semana a 19.36 centavos de dólar por libra-peso, queda de 4.35% em relação aos 20.24 centavos da sexta-feira anterior. O câmbio, porém, trabalhou a favor do produtor. No curto prazo, o nível de 19.44 centavos de dólar por libra-peso funciona como divisor de águas. Se o mercado conseguir se sustentar acima dele, as próximas resistências aparecem em 19.76, 20.16 e, mais adiante, 21.19 centavos. Se perder esse suporte, os alvos de baixa passam a ser 18.85, 18.02 e 17.74 centavos de dólar por libra-peso. Marcelo chama atenção ainda para o petróleo, que segue firme em meio a rumores de um eventual ataque dos Estados Unidos ao Irã nos próximos dias: o WTI fechou a semana a US$ 104.50 e o Brent a US$ 114.00 por barril, fator que tende a dar sustentação ao etanol e, por tabela, ao açúcar.

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Tenham todos um excelente final de semana

Arnaldo Luiz Corrêa

 

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