NINGUÉM QUEBRA COM MARGEM NO BOLSO

O mercado futuro de açúcar em NY viveu uma semana de leve realização de lucros e encerrou a sexta-feira cotado a 20,26 centavos de dólar por libra-peso, acumulando queda de 59 pontos no período, o equivalente a 13 dólares por tonelada. Os vencimentos mais longos, que se estendem até julho de 2029, caíram menos, 35 pontos em média.

Há um detalhe curioso nesse movimento. Entre 13 e 20 de outubro, os fundos liquidaram apenas 7.300 lotes, e isso foi suficiente para derrubar NY em 59 pontos. Ou seja, bastaram cerca de 125 lotes para cada ponto de queda. Na semana anterior, o mercado havia precisado de 558 lotes para subir um único ponto. Estaríamos diante de um congestionamento, em que o mercado encontra mais dificuldade para subir do que para cair? É possível.

Quando convertemos os preços de NY pelo NDF (contrato a termo de dólar com liquidação financeira) e calculamos a média para a safra que vem, a rentabilidade melhorou e os preços chegaram ao 70º percentil (2,438 reais por tonelada FOB Santos). Em termos práticos: nos últimos doze anos, com valores ajustados pela inflação, o açúcar esteve acima desse patamar em apenas 30% do tempo. Essa percepção já tem sido suficiente para que as usinas acelerem as fixações de preço para o próximo ano.

Na nossa visão, acelerar as fixações para 2027/28 é a estratégia acertada. A cana bisada, aquela que fica no campo nesta safra e só será colhida na próxima, traz insegurança para as usinas porque representa mais produto disponível, e mais cedo, no ano que vem. A quantidade total de cana, claro, não muda: o que deixa de ser moído agora, restringindo a oferta de curto prazo, será moído na safra seguinte. O que também não muda é a capacidade instalada de moagem, e é aí que está a questão. Vamos bater no teto novamente, algo perto de 650-660 milhões de toneladas de cana.

Nesse cenário, se um número crescente de usinas apostar que os preços vão continuar subindo e preferir esperar para fixar, podemos assistir a uma avalanche de “atrasadinhos”, como já aconteceu outras vezes, bastando que o mercado comece a precificar uma safra 27/28 maior do que se esperava. Em resumo: como ninguém quebra com margem no bolso, melhor aproveitar os preços bons e, se for o caso, comprar uma call (opção de compra) uns 200 pontos acima do mercado para participar de uma eventual continuação da alta.

O spread março/maio encolheu de 0.65 para 0.61 centavo e o branco de Londres para dezembro recuou a 533.90 dólares por tonelada, sinais de que a escassez de curto prazo perdeu um pouco da urgência.

A notícia da semana veio da Índia: a licitação das estatais de petróleo para 11 bilhões de litros de etanol no ciclo que começa em novembro deixou de fora caldo, xarope e melaço B e cortou o incentivo ao etanol de milho de ₹ 5.79 para ₹ 2.79 por litro (de R$ 0.34 para R$ 0.16). Na prática, a Índia zera o desvio de açúcar para etanol em 2026/27 e guarda mais açúcar em casa, em ano de monção fraca e preço interno em máximas. Os preços ex-usina já caíram ₹ 120–150 por quintal em Maharashtra e Karnataka, as ações das usinas indianas chegaram a recuar perto de 7% e parte do setor pediu revisão da regra, ou seja, o assunto ainda pode mudar de figura.

No Centro-Sul, a segunda quinzena de setembro mostrou moagem de 38.64 milhões de toneladas (-2.9% sobre o ano passado), 2.86 milhões de toneladas de açúcar (-6%) e 1.98 bilhão de litros de etanol (-9.5%), conta das chuvas que atrasaram a colheita; o tempo seco previsto deve devolver o ritmo nas próximas semanas, com parte da cana já se encaminhando para a safra seguinte.

Do lado do etanol, o mercado interno seguiu firme. O indicador Cepea/Esalq do hidratado subiu pela terceira semana seguida, para R$ 2.6892 por litro (+1.96%), e o anidro foi a R$ 3.0824 (+0.96%); em Paulínia, o hidratado acumulava alta de 6.74% em outubro, a R$ 2,820.50 por metro cúbico, enquanto o cristal Cepea chegava a R$ 125.62 por saca (+3.72% no mês).

Com o petróleo subindo 7.50% na semana e o WTI perto de 99 dólares por barril, a remuneração do etanol continua competindo de igual para igual com a do açúcar e segue limitando o desvio de cana para a fábrica, o que ajuda a explicar por que NY não derrete mesmo com os fundos de braços cruzados. Para quem ainda tem volume a fixar, a lição da semana é a de sempre: comparar, vencimento a vencimento, o que rende o açúcar fixado em reais contra o hidratado, lembrando que câmbio e petróleo são as duas variáveis capazes de virar essa mesa.

Na leitura técnica de Marcelo Moreira, o março/27 encerrou a semana depois de marcar a máxima logo na segunda-feira, a 20.95, sem fôlego para voltar a testar o topo da banda de Bollinger de 50 dias, hoje em 21.22 centavos, a faixa que indica até onde o preço costuma esticar antes de encontrar cansaço. Nem a alta de 7.50% do petróleo no período segurou o mercado, que chegou a negociar na mínima da semana a 20.02. Daqui para frente, as resistências estão em 20.65, 20.71 e 21.22 centavos de dólar por libra-peso; os suportes, em 19.85, 19.37 e 17.50 e, só depois disso, lá embaixo, na média móvel de 200 dias, a 16.53 centavos, um lembrete de quanto o mercado já subiu para chegar aonde está.

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Tenham todos um excelente final de semana

Arnaldo Luiz Corrêa

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