O AÇÚCAR NO BANCO DO CARONA

A semana começou com o lado da oferta dando o tom. Na terça-feira, a Thai Sugar Millers Corporation cortou a previsão de produção tailandesa 2026/27 para menos de 10 milhões de toneladas (ante 12 milhões na safra anterior), combinando a seca ligada ao El Niño no nordeste do país — região responsável por cerca de 45% da produção nacional — com a migração de área para a mandioca, cujo preço anda mais convidativo. Como a Tailândia é a segunda maior exportadora mundial e a ISO (Organização Internacional do Açúcar) já projeta déficit global de cerca de 260,000 toneladas para o ciclo, o corte reforçou o quadro de aperto. No mesmo dia, o índice de açúcar da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostrou salto de 11.9% em agosto, a 106.4 pontos — a maior alta entre todos os itens do índice de alimentos —, refletindo a quebra europeia (a Comissão cortou a previsão 2026/27 em 19%, para 13.4 milhões de toneladas, por conta da seca), o risco climático asiático e a manutenção do plano indiano de importar açúcar bruto com isenção de imposto. Não por acaso, o açúcar em NY acumula alta de cerca de 20% no ano e teve o melhor agosto desde 2010 (+21.5%), quadro que levou um banco americano a manter recomendação comprada, com alvos de 17 centavos por libra-peso há um par de meses em três meses e 19 centavos em doze.

A partir de quarta, porém, quem assumiu o volante foi o petróleo. Com o agravamento do conflito no Golfo — que já se arrasta por seis meses —, a refinaria de Jazan da Saudi Aramco (400,000 barris por dia) atingida pela segunda vez em um mês e o tráfego pelo Estreito de Ormuz reduzido a cerca de 10 embarcações por dia, o Brent rompeu a barreira psicológica dos US$ 100 por barril na quarta-feira (101.21, +3.36%) e chegou a negociar a US$ 108 na semana (o WTI, a US$ 102), acumulando alta semanal de 11%, antes de devolver 3% na sexta, depois que o Financial Times noticiou negociações de chanceleres do Oriente Médio por uma trégua temporária com o Irã para reabrir a passagem pelo estreito.

Mesmo com a correção, o petróleo fechou a semana acima de US$ 100 pela primeira vez desde meados de maio. Para o nosso mercado, a leitura é direta: petróleo caro significa paridade do etanol ainda mais favorável no Centro-Sul, mais cana desviada do açúcar e oferta física mais enxuta — dinâmica que já aparecia nas exportações brasileiras de agosto, 27% menores na comparação anual.

O contrato futuro de NY respondeu na mesma toada: o out-26 subiu de 18.22 centavos por libra-peso na quarta a 18.40 na sequência e atingiu a máxima da semana a 18.88 — superando as resistências de 18.48, 18.67 e 18.77 indicadas no comentário anterior —, mas o reflexo do recuo do petróleo na sexta foi imediato, com o vencimento encerrando a 18.15 centavos por libra-peso. O março-27, que chegou a negociar na máxima de 19.90, fechou a 19.15 — confirmação de que a correlação com o petróleo segue forte nos dois sentidos.

No meio do caminho, três sinais de atenção: Primeiro, a posição dos fundos: segundo a ISO, os especuladores inverteram cerca de 120,000 lotes vendidos no fim de julho para mais de 132,000 lotes comprados em 1º de setembro — o equivalente a 12.7 milhões de toneladas —, movimento que explica boa parte da alta de 13% no preço médio ISA de agosto, para 17.40 centavos por libra-peso; Segundo, o Paquistão, fiel ao seu padrão errático: a estatal TCP abriu leilão internacional para exportar cerca de 108,000 toneladas de açúcar branco importado no ciclo passado e agora sobrando em estoque — o mesmo país que já havia liberado 790,000 toneladas em exportações e depois autorizado até 500,000 toneladas em importações no mesmo ciclo, reflexo de estimativas de demanda pouco confiáveis; as propostas vão até 28/9, data que vale acompanhar como possível gatilho de ruído de curto prazo. Terceiro, a Índia: apesar da cota tarifária e da prorrogação do prazo de importação, os volumes seguem economicamente inviáveis — das cerca de 260,000 toneladas comprometidas por refinarias portuárias, apenas alguns milhares de toneladas entraram de fato no mercado doméstico, já que o açúcar importado processado custa acima de ₹55 por quilo (26 centavos de dólar por libra peso) antes da logística, acima do preço interno, que recuou para a faixa de ₹44-50 (20-23 centavos de dólar por libra peso).

A ISO ir além do relato dos números e decretar que os preços estão "desconectados dos fundamentos" é muito estranho. Análise de mercado faz parte do mandato da ISO, é verdade — mas há uma diferença entre uma consultoria privada emitir opinião e um organismo intergovernamental de 85 países, financiado e governado inclusive por grandes consumidores e importadores com interesse óbvio em preços mais baixos, carimbar com selo quase oficial que o mercado subiu demais. Um juízo desses nunca é totalmente isento de leitura política — e pode acabar influenciando o comportamento que diz apenas descrever. Seja como for, o dado em si merece atenção: posicionamento comprado dessa magnitude deixa o mercado vulnerável a uma correção técnica se os fundos resolverem realizar lucros — motivo suficiente para quem ainda não fixou aproveitar os repiques.

No campo técnico, Marcelo Moreira aponta que, no curto prazo, o out-26 encontra resistências a 18.48, 18.84, 18.88 e 19.15 centavos por libra-peso, com suportes importantes a 17.90, 17.67, 17.16, 16.92, 16.31 e 15.33 centavos por libra-peso — mapa que ganha relevância extra numa semana em que o mercado mostrou o quanto sobe e desce ao sabor do petróleo.

Em resumo: fundamentos apertados em múltiplas origens, petróleo turbinando o mix etanol e fundos pesadamente comprados — combinação que sustenta os preços, mas também concentra os riscos. A recomendação da semana se manteve inalterada: não acelerar vendas sobre fixações já feitas, aproveitar repiques para elevar os hedges da safra 2026/27 e monitorar de perto Ormuz, hoje o principal risco de baixa embutido nos preços. Os fundos estavam comprados em 160,551 contratos no dia 8 de setembro, um acréscimo de 28,000 em uma semana.

Ao longo dos últimos meses, este comentário semanal insistiu numa tese que, na época, soava quase teimosa. Em meados de abril, quando NY não conseguia ultrapassar a barreira dos 14 centavos de dólar por libra-peso, escrevemos que aquele nível "não remunera 10 de cada 10 produtores de açúcar no planeta" e que era "difícil encontrar base sólida" para acreditar em quedas adicionais. Em maio, com o açúcar negociando cerca de 300 pontos abaixo do custo total FOB Santos, repetimos que "preços persistentemente abaixo do custo acabam produzindo consequências" e que faltava apenas um gatilho para tirar o mercado daquela faixa deprimida. No final de junho, quando o pessimismo havia contaminado praticamente todo o setor, lembramos que "o pior sentimento costuma aparecer muito próximo dos piores preços" e que a própria curva futura já embutia uma recuperação gradual, sinal de que o excesso não permaneceria indefinidamente.

Foi com essa convicção que, semana após semana, recomendamos aos consumidores industriais que aproveitassem o período de extrema depressão dos preços para alongar suas compras o máximo possível, e alertamos os produtores de que preços entre 13 e 14 centavos de dólar por libra-peso dificilmente seriam realidade para a safra 2027/28. Em julho, afirmamos que já havíamos visto o pior desta fase de baixa e que "os extremos raramente duram para sempre". Não se tratava de adivinhação, mas de aritmética simples: quando o mercado negocia abaixo do custo de produção do maior exportador mundial, a oferta responde, mais cedo ou mais tarde. Quem estruturou compras de longo prazo naquele momento provavelmente está satisfeito hoje. Quem esperou preços ainda menores incentivados por conhecidos Cavaleiros do Apocalipse descobriu, mais uma vez, que o mercado não costuma avisar quando chega ao fundo.

Anote aí: nos dias 17 e 18 de novembro, a Archer Consulting promove o Curso Avançado de Futuros, Opções e Derivativos de Commodities Agrícolas — presencial, em São Paulo, das 9 às 17 horas, em local a ser informado posteriormente. Referência no mercado há anos, o curso já formou mais de 3,000 profissionais e é ferramenta essencial para quem quer transformar a teoria dos derivativos em decisões concretas de proteção de margem. Reserve a data com priscilla@archerconsulting.com.br

Bom final de semana

Arnaldo Luiz Corrêa

Compartilhe

Filter by keyword

Assine nossa newsletter

en_USEN
Skip to content