A semana foi encurtada pelo feriado do Dia da Independência dos Estados Unidos e, além disso, as sessões transcorreram com relativa tranquilidade. A realização da Copa do Mundo de Futebol no país também contribuiu para uma redução do volume negociado, algo perfeitamente normal quando um evento dessa magnitude divide a atenção dos participantes do mercado.
Na quinta-feira, último pregão da semana, o contrato de outubro encerrou cotado a 14.81 centavos de dólar por libra-peso, justamente na mínima do dia, depois de ter alcançado 15.17 centavos na máxima. Apesar do fechamento pouco inspirador, o saldo semanal foi positivo. O outubro/26 acumulou alta de 30 pontos, equivalente a aproximadamente US$ 6.60 por tonelada, enquanto o março/27 avançou 29 pontos, cerca de US$ 6.39 por tonelada.
O que mais chama a atenção, entretanto, é o comportamento dos vencimentos mais longos. O contrato de março de 2029 já voltou a negociar acima dos 17 centavos de dólar por libra-peso. Vale lembrar que repetimos inúmeras vezes, ao longo dos últimos meses, que os consumidores industriais deveriam aproveitar aquele período de extrema depressão dos preços para alongar suas compras o máximo possível. Os preços estavam comprimidos a níveis incompatíveis com o custo de produção brasileiro e, mais cedo ou mais tarde, tenderiam a reagir.
O curioso é que o comportamento dos agentes de mercado raramente muda. Costumamos ficar pessimistas justamente quando os preços estão deprimidos e excessivamente otimistas quando eles já subiram. Em outras palavras, somos baixistas na baixa e altistas na alta. É uma característica quase permanente dos mercados.
Lembro de um produtor mencionado em comentários anteriores que acreditava que preços entre 13 e 14 centavos seriam uma realidade também para a safra 2027/28. Muito provavelmente isso não acontecerá. Não porque alguém consiga prever o futuro com precisão, mas porque o mercado de commodities possui uma notável capacidade de surpreender e de desmontar aquilo que parece consenso. Se existe uma certeza nesse mercado, é que ele adora provar que a maioria está errada.
Outro aspecto importante é que os preços em reais por tonelada, considerando câmbio, prêmio de exportação e demais componentes da formação do preço, já voltaram a superar, ainda que modestamente, o custo médio de produção. Não são preços capazes de provocar entusiasmo, mas representam uma melhora significativa em relação ao cenário observado poucas semanas atrás. O mercado continua desafiador, porém já não apresenta o mesmo quadro de estresse que vimos recentemente.
Outro tema que chamou atenção foi a entrega de quase 800 mil toneladas de açúcar, integralmente originadas do Centro-Sul do Brasil. A operação foi realizada pela trading chinesa COFCO, que entregou 15.678 lotes.
Como sempre acontece, uma entrega dessa magnitude imediatamente desperta interpretações de que a demanda mundial estaria enfraquecida. Afinal, trata-se de uma empresa ligada ao maior importador mundial de açúcar VHP. Essa conclusão, entretanto, merece bastante cautela.
Uma entrega isolada dificilmente permite conclusões definitivas. Sem conhecer o conjunto das posições da empresa, é praticamente impossível interpretar corretamente a operação. Ela pode refletir um swap entre vencimentos, uma arbitragem, uma substituição de embarques, uma reorganização do portfólio comercial ou simplesmente uma decisão operacional. Quem tenta explicar o mercado apenas observando uma entrega corre o risco de enxergar apenas uma pequena peça de um quebra-cabeça muito maior.
Enquanto isso, a análise técnica também começa a trazer sinais interessantes. Nosso colaborador Marcelo Moreira observa que o contrato de outubro conseguiu romper durante a semana uma resistência considerada extremamente importante: a média móvel dos 200 dias, atingindo a máxima de 15.25 centavos de dólar por libra-peso.
Segundo Marcelo, aquilo que até recentemente funcionava como resistência passa agora a exercer o papel de suporte. Além disso, o contrato praticamente encerrou a semana apoiado sobre um conjunto bastante relevante de suportes técnicos representados pelas médias móveis de 50, 100 e 200 dias.
Esse ponto passa a ser chave para as próximas semanas. Caso o mercado perca essa região de suporte, aumenta a probabilidade de um retorno para a faixa de 14.50 e, posteriormente, 14.10 centavos de dólar por libra-peso. Por outro lado, se esses níveis continuarem sendo respeitados, a tendência de recuperação permanece preservada, abrindo espaço para uma movimentação em direção aos 17 centavos, na avaliação do Marcelo.
Embora ainda seja cedo para afirmar que uma nova tendência de alta esteja consolidada, já não parece razoável manter o grau de pessimismo que dominava o mercado quando negociávamos abaixo dos 14 centavos. Os preços começaram a responder, os contratos mais longos já incorporam uma remuneração mais compatível com os custos da produção brasileira e, aos poucos, o mercado parece reconhecer que talvez tenha exagerado na dose de pessimismo.
A grande lição continua sendo a mesma de sempre. As melhores oportunidades dificilmente aparecem quando existe conforto. Elas surgem justamente quando predomina o medo, quando a maioria acredita que "desta vez é diferente" e quando os preços parecem destinados a cair indefinidamente. Foi exatamente esse ambiente que vimos há poucas semanas.
Quem aproveitou aquele momento para estruturar compras de longo prazo provavelmente está bastante satisfeito hoje. Quem preferiu esperar preços ainda menores talvez tenha descoberto, mais uma vez, que o mercado não costuma avisar quando chega ao fundo.
O mercado de commodities nunca foi generoso com quem tenta acertar o último centavo de uma baixa ou o último centavo de uma alta. Ele recompensa muito mais quem entende valor do que quem tenta adivinhar o próximo movimento.
E, como sempre gostamos de dizer por aqui, não adianta lamentar as oportunidades perdidas. O mercado continuará oferecendo novas chances. A única diferença é que elas quase nunca aparecem quando estamos emocionalmente preparados para aproveitá-las.
Bom fim de semana a todos.
Arnaldo Luiz Corrêa