O mercado futuro de açúcar encerrou a semana com o contrato para vencimento em outubro de 2026 negociado a 14,82 centavos de dólar por libra-peso, acumulando uma queda de apenas quatro pontos no período, o equivalente a pouco menos de US$ 1 por tonelada. Considerando a volatilidade que costuma caracterizar essa commodity, foi uma semana quase monástica. Os demais vencimentos, de março de 2027 até maio de 2029, registraram perdas em torno de dez pontos, pouco mais de US$ 2 por tonelada.
O principal fato da semana veio de Brasília. Foi aprovada a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32%, inicialmente por um período de 180 dias. A medida deverá reduzir a necessidade de importação de gasolina em aproximadamente 900 milhões de litros por ano, fortalecendo a demanda doméstica por etanol. À primeira vista pode parecer apenas mais uma decisão regulatória, dessas que costumam ocupar poucas linhas nos jornais econômicos. Para o setor sucroenergético, significa que uma parcela maior da cana poderá encontrar remuneração através do etanol. Em outras palavras, aumenta-se, ainda que modestamente, a opcionalidade das usinas na definição do mix entre açúcar e combustível.
Essa decisão, sozinha, não é capaz de transformar completamente a dinâmica do mercado internacional de açúcar. Não será ela que fará desaparecer o excedente global nem provocará uma corrida desenfreada dos compradores. Mas representa um pequeno tijolo colocado na construção de um cenário um pouco mais favorável aos preços. E mercados, como todos sabemos, raramente mudam de direção por causa de um único acontecimento. Eles mudam quando diversos fatores começam a caminhar na mesma direção. Segundo um trader piadista, o breve tombo no meio da semana devido a uma notícia dizendo que foi encontrado açúcar na Via Láctea.
Outro tema relevante continua sendo a Índia. Durante a semana voltaram a surgir informações reforçando a limitada disponibilidade de açúcar exportável para a próxima temporada. Alguns acreditam que a Índia não deve exportar nos próximos dois anos. Não se trata exatamente de uma novidade. Já vínhamos comentando esse assunto há algumas semanas. O governo indiano continua administrando cuidadosamente seus estoques, procurando equilibrar abastecimento interno, inflação de alimentos e produção de etanol.
A safra indiana começa oficialmente em 1º de outubro, e até lá o comportamento das monções continuará sendo o fator determinante. Até o momento, o regime de chuvas permanece bastante favorável, elevando o potencial produtivo da cana. Mas entre uma boa monção e uma grande safra existe um caminho relativamente longo. Basta lembrar que agricultura continua sendo uma atividade em que a previsão meteorológica frequentemente muda de opinião com mais rapidez do que certos analistas mudam de recomendação depois que o mercado já andou.
Enquanto isso, o petróleo resolveu dar uma pequena contribuição aos compradores. Depois de passar boa parte das últimas semanas pressionado, voltou a subir mais de 3% no último pregão da semana, encerrando novamente acima dos US$ 80 por barril. Pode parecer pouco, mas petróleo continua sendo um daqueles ativos que exercem influência silenciosa sobre o açúcar.
Do lado da oferta brasileira, continua valendo a mesma observação feita nas últimas semanas. Os preços atuais ainda não justificam qualquer entusiasmo exagerado por parte das usinas na aceleração das fixações da próxima safra (27/28). Evidentemente, cada empresa possui uma estrutura de custos diferente, necessidades específicas de caixa e níveis distintos de exposição ao risco. Não existe receita única. Mas olhando o setor como um todo, parece razoável imaginar que boa parte dos produtores continuará privilegiando disciplina em vez de velocidade. Aliás, disciplina costuma ser uma palavra pouco valorizada quando os mercados sobem e extremamente admirada quando eles caem.
O mercado financeiro conhece muito bem esse comportamento. É o velho investidor que vende na baixa porque entrou em pânico e recompra na alta porque voltou a acreditar. No açúcar, infelizmente, esse roteiro também costuma aparecer com certa frequência. Por isso, talvez o maior desafio não seja descobrir para onde irá o próximo movimento do mercado. O verdadeiro desafio continua sendo manter uma estratégia coerente independentemente da direção dos preços.
Embora os preços internacionais continuem relativamente deprimidos quando comparados às médias históricas ajustadas pela inflação, a velocidade das quedas diminuiu significativamente. Isso normalmente acontece quando vendedores começam a encontrar menos convicção para continuar pressionando o mercado. Isso não significa que o fundo foi atingido. Mercados não costumam tocar uma campainha anunciando que acabaram de formar o piso. Infelizmente, a bolsa ainda não oferece esse serviço. Se oferecesse, provavelmente haveria fila de espera.
O que parece estar acontecendo é algo mais interessante. Depois de meses em que praticamente qualquer notícia servia como justificativa para vender, o mercado começa lentamente a selecionar melhor os argumentos. Más notícias já não provocam quedas tão intensas quanto antes. Ao mesmo tempo, pequenas notícias positivas começam a produzir reações mais visíveis. E a fixação de preços – que segundo o nosso modelo – chega a 75% para a safra 26/27 reduz a pressão vendedora sobre o outubro.
Ainda é cedo para decretar qualquer mudança definitiva de tendência. Mas talvez também seja tarde para continuar acreditando que somente existe espaço para novas quedas. No mercado, assim como na vida, os extremos raramente duram para sempre.
Nosso analista Marcelo Moreira observa que o contrato outubro/26 continua negociando dentro de um intervalo bastante bem definido, entre 14,30 e 15,00 centavos de dólar por libra-peso. Há várias semanas esse corredor funciona como um verdadeiro cabo de guerra entre compradores e vendedores. Nem os otimistas conseguem impor uma tendência consistente de alta, nem os pessimistas encontram força suficiente para romper os principais suportes. No centro dessa disputa está justamente a região dos 14,80 centavos, onde hoje convergem as médias móveis de 50, 100 e 200 dias. Quando três referências técnicas importantes passam a ocupar praticamente o mesmo nível de preço, dificilmente isso acontece por acaso. É exatamente nesses pontos que grandes participantes costumam medir forças. Caso os compradores consigam consolidar preços acima de 14,80 centavos, Marcelo entende que o mercado poderá voltar a desenvolver uma tendência de alta mais consistente. Nesse cenário, os próximos objetivos técnicos aparecem em 15,30, depois 15,90, posteriormente 16,50 e, num movimento mais amplo, 17,00 centavos de dólar por libra-peso.
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Arnaldo Luiz Corrêa