O mercado futuro de açúcar em Nova Iorque encerrou a semana em recuperação. O contrato julho, cuja expiração ocorre na próxima terça-feira, fechou a 14,14 centavos de dólar por libra-peso, uma alta de 41 pontos em relação à semana anterior. Já o contrato outubro, que passa a ser o primeiro vencimento líquido da curva, encerrou a 14,55 centavos por libra-peso, avanço de 42 pontos na semana, o equivalente a aproximadamente US$ 9,50 por tonelada.
A reação chama a atenção porque ocorreu justamente quando o humor do setor parece estar no seu pior nível dos últimos meses. Conversando com clientes, amigos e participantes do mercado, a impressão é a mesma: o pessimismo tomou conta. Não é um ou outro produtor preocupado. É praticamente todo mundo olhando para o mesmo cenário e chegando à mesma conclusão: preços baixos por muito tempo.
Nesta semana conversei com um amigo usineiro que resumiu muito bem esse sentimento. Na visão dele, a expansão do etanol de milho será tão grande que acabará limitando qualquer recuperação mais expressiva dos preços. A capacidade já contratada para entrar em operação nos próximos anos, segundo ele, aumentará significativamente a oferta de combustível, reduzindo a competitividade do etanol de cana e, consequentemente, diminuindo a necessidade de direcionar mais cana para a produção de açúcar em momentos de preços melhores.
Como se isso não bastasse, ele acredita que o Centro-Sul já possui capacidade instalada para produzir entre 46 e 48 milhões de toneladas de açúcar. Em outras palavras, se houver cana suficiente, existe estrutura industrial para transformar praticamente qualquer recuperação de preços em aumento de produção.
E, pelo menos até agora, o clima resolveu colaborar. As chuvas vêm ocorrendo de forma satisfatória em praticamente todo o Centro-Sul, e as previsões continuam indicando boas precipitações para os próximos meses. Na avaliação dele, portanto, não existe nenhum fator que justifique imaginar preços significativamente melhores em 2026 ou 2027.
Quando perguntei sobre 2028, a resposta foi igualmente desanimadora. Segundo ele, somente uma quebra climática relevante ou uma redução importante dos investimentos nos tratos culturais poderia provocar queda suficiente na oferta de cana para alterar esse quadro. Caso contrário, o mercado continuaria convivendo com ampla disponibilidade de matéria-prima e, por consequência, preços deprimidos.
É uma tese perfeitamente defensável. Mas existe um detalhe que me chama a atenção. Quando todos passam a pensar exatamente da mesma maneira, normalmente vale a pena ligar o sinal amarelo. Mercado financeiro tem um hábito curioso: ele raramente recompensa o consenso. Quando todo mundo acredita que o preço só pode cair, normalmente boa parte dessa expectativa já está refletida nas cotações. É justamente nesses momentos que pequenas mudanças de percepção produzem movimentos relativamente expressivos.
Não estou dizendo que o mercado entrará em uma grande tendência de alta amanhã. Estou apenas observando que o pior sentimento costuma aparecer muito próximo dos piores preços.
Outro ponto importante é separar o preço do contrato mais próximo da estrutura completa da curva futura. É verdade que ninguém consegue produzir açúcar confortavelmente a 14 centavos de dólar por libra-peso. Mas também é verdade que o mercado já não está negociando apenas nesse nível. Se observarmos a média dos contratos entre outubro de 2026 e março de 2027, encontramos aproximadamente 15 centavos por libra-peso. Entre maio de 2027 e março de 2028, essa média sobe para cerca de 15,66 centavos. E entre maio de 2028 e março de 2029 alcança aproximadamente 16,38 centavos. Ou seja, o próprio mercado futuro já trabalha com uma recuperação gradual dos preços ao longo do tempo.
Isso fica ainda mais evidente quando analisamos alguns spreads. O diferencial entre outubro de 2027 e outubro de 2026 indica um desconto de aproximadamente 8,5% ao ano. Já entre março de 2028 e março de 2027 esse desconto diminui para cerca de 6%.
A mensagem parece bastante clara. Existe pressão concentrada no curto prazo. Essa pressão decorre não apenas da percepção de elevada oferta, mas também da existência de um volume considerável de açúcar ainda sem fixação de preços, que pode aparecer para venda sempre que o mercado oferecer alguma oportunidade.
No entanto, quanto mais distante o vencimento, menor é esse desconto. Em outras palavras, a própria curva sugere que o excesso atual não deverá permanecer indefinidamente. Outro exercício interessante consiste em olhar para a história. Muitas vezes temos a impressão de que estamos vivendo um período absolutamente inédito. Quase nunca estamos.
Tomando como referência a média dos fechamentos diários, o mercado permaneceu abaixo de 15 centavos por libra-peso durante aproximadamente 43 meses consecutivos entre junho de 2017 e dezembro de 2020. Antes disso, em 2015, houve outro período de cerca de dez meses abaixo desse mesmo patamar.
E existe ainda um exemplo mais longo. Durante boa parte dos anos do (des) governo Dilma Rousseff, convivemos com preços deprimidos por um período que se aproximou de seis anos consecutivos abaixo dos 15 centavos por libra-peso. Independentemente das razões econômicas e políticas que explicam aquele ciclo, o fato é que o mercado permaneceu barato por muito tempo. A receita caiu (Dilma odeia o setor) e o endividamento das usinas explodiu
Agora estamos novamente nessa situação desde novembro de 2025. Em 2026, a média dos fechamentos gira em torno de 14,49 centavos por libra-peso. Não é exatamente um ambiente que inspire entusiasmo. Mas justamente por isso talvez seja o momento de fazer uma pergunta simples: quanto desse pessimismo já está incorporado aos preços? Na minha opinião, talvez mais do que imaginamos.
Nosso colaborador Marcelo Moreira lembra que, nos últimos 45 dias, o contrato outubro saiu de 15,88 centavos para negociar a mínima dos últimos três anos em 14,74 centavos. A recuperação observada nesta semana levou novamente o mercado para a região das médias móveis de 50, 100 e 200 dias, localizadas entre 14,70 e 14,83 centavos por libra-peso. Do ponto de vista técnico, trata-se de uma região importante. Caso consiga romper de forma consistente a média móvel de 200 dias, o mercado poderá iniciar um movimento de alta com objetivos em 15,17, 15,82 e 16,40 centavos por libra-peso. Em um cenário mais otimista, o alvo seguinte passaria a ser 17,70 centavos. Será que isso vai acontecer? Ninguém sabe.
Mas existe uma diferença enorme entre dizer que algo é impossível e dizer que ainda não existem evidências suficientes para afirmar que acontecerá. Mercado não se move por unanimidade. Mercado se move quando a percepção começa a mudar.
E, curiosamente, essa mudança costuma começar justamente quando quase ninguém acredita nela. (vide final de 2023). Confesso que estou torcendo para esse cenário se concretizar. Não apenas porque faria sentido do ponto de vista técnico ou porque muitos produtores voltariam a respirar um pouco mais aliviados.
Existe também um motivo muito mais importante. Meu amigo usineiro prometeu que, se o mercado chegar aos 17,70 centavos por libra-peso, ele paga um jantar para mim em Nova Iorque. Depois de tantos anos acompanhando esse mercado, aprendi que há poucas previsões realmente confiáveis. Mas uma delas é praticamente infalível: jantar pago pelos outros sempre melhora qualquer análise de mercado.
Bom fim de semana a todos.
Arnaldo Luiz Corrêa