O PETRÓLEO EMPURRA, A DEFASAGEM SEGURA

Quem passou a semana acompanhando apenas as manchetes provavelmente imaginou que o mercado de açúcar tivesse vivido uma revolução. Guerra no Oriente Médio, petróleo disparando, volatilidade em todos os mercados, analistas revisando projeções e investidores correndo para justificar cada oscilação de meia dúzia de pontos. Quem olhou o fechamento de sexta-feira, entretanto, percebeu que a montanha pariu um rato.

O contrato com vencimento em outubro/26 encerrou a semana cotado a 14.76 centavos de dólar por libra-peso. Depois de subir embalado pela escalada das tensões geopolíticas e pela disparada do petróleo, devolveu tudo o que havia ganho — e mais um troco. O resultado foi uma queda de apenas 6 pontos no outubro/26 e entre 9 e 19 pontos nos demais vencimentos. Em outras palavras, cinco dias de adrenalina para terminar praticamente no mesmo lugar.

É exatamente isso que caracteriza o mercado atual: muita volatilidade e pouca mudança nos fundamentos. Os preços continuam procurando desesperadamente um argumento para sair da faixa onde estão presos há semanas. Até agora, esse argumento simplesmente não apareceu.

O principal combustível para a alta veio do mercado de energia. Em teoria, petróleo mais caro significa gasolina mais cara. Gasolina mais cara melhora a competitividade do etanol. Etanol mais competitivo leva as usinas a destinarem relativamente mais cana para combustível e menos para açúcar. Menor oferta de açúcar, preços maiores. Essa é a lógica econômica que qualquer estudante do primeiro semestre de Economia aprende. Mas, não no Brasil.

Aqui, a teoria econômica frequentemente entra de férias quando a política resolve fazer campanha eleitoral com o dinheiro dos outros. A gasolina continua sendo vendida com uma defasagem estimada próxima de 40% em relação ao mercado internacional. Parece ótimo para o consumidor no curto prazo. Afinal, quem não gosta de abastecer pagando menos? O problema é que almoço grátis continua sendo uma das maiores obras de ficção da humanidade.

Se a Petrobras vende combustível abaixo do preço de mercado, alguém inevitavelmente absorve essa diferença. O prejuízo não evapora por decreto. Ele apenas muda de endereço. Ora aparece no balanço da empresa, ora no caixa do Tesouro, ora na conta do contribuinte, que acaba financiando essa generosidade compulsória sem sequer receber um bilhete de agradecimento.

É a velha especialidade do populismo econômico: distribuir benefícios imediatos e esconder a conta no bolso de quem ainda nem percebeu que vai pagá-la. Funciona bem até o dia em que a matemática resolve participar da discussão. E a matemática, diferentemente dos políticos, não disputa eleição, não concede entrevista e jamais aceita ser intimidada.

Enquanto isso, o debate político brasileiro continua preso a um roteiro previsível. Discute-se quem grita mais alto, quem produz o melhor vídeo para as redes sociais ou quem consegue criar o adversário mais monstruoso. Quase ninguém discute aquilo que realmente determina o crescimento de um país: produtividade, educação de qualidade, segurança jurídica, infraestrutura, responsabilidade fiscal, eficiência do Estado e formação de capital humano.

O Brasil não precisa de mais salvadores da pátria. Precisa de administradores competentes. Países ricos não são construídos por discursos inflamados, mas por décadas de boas decisões. Infelizmente, boas decisões raramente rendem aplausos imediatos. Controles artificiais de preços, subsídios indiscriminados e soluções mágicas, sim. O problema é que essas mágicas costumam terminar da mesma maneira: o coelho desaparece e a conta permanece.

Voltando ao açúcar, o etanol hidratado continua negociando aproximadamente 150 pontos abaixo do açúcar equivalente, evidenciando que a valorização do petróleo ainda não conseguiu produzir o efeito esperado sobre o mercado doméstico de combustíveis. Ao mesmo tempo, praticamente não surgiram novidades relevantes sobre a produção do Centro-Sul brasileiro nem sobre Índia, Tailândia ou China capazes de alterar significativamente o balanço global.

Em outras palavras, o petróleo fez força para puxar o mercado para cima, mas os fundamentos colocaram o pé no freio.

Para quem trabalha com gestão de risco, pouca coisa mudou. Continua sendo recomendável aproveitar os momentos de recuperação para avançar gradualmente nas fixações, preservando flexibilidade através de estruturas com opções. Gestão de risco não consiste em descobrir o topo ou o fundo do mercado. Consiste em proteger margens, preservar fluxo de caixa e garantir que uma decisão errada de mercado nunca coloque em risco anos de trabalho.

Como costuma acontecer em mercados laterais, cada pequena alta passa a ser apresentada como o início de um novo ciclo de valorização. Cada pequena baixa, por sua vez, ganha contornos de catástrofe iminente. A indústria das previsões vive de extremos. O mercado, felizmente, costuma ser bem mais racional.

No encerramento desta semana, a fotografia permanece praticamente a mesma. Os fundamentos pouco mudaram. A geopolítica assumiu temporariamente o papel de protagonista e o petróleo substituiu o clima como principal fator de expectativa. Índia, Tailândia, Europa e o Centro-Sul brasileiro continuam merecendo atenção, mas ainda faltam fatos suficientemente robustos para alterar o balanço mundial de forma significativa.

Até que esse catalisador apareça, o mercado continuará fazendo aquilo que mais gosta de fazer quando lhe faltam notícias: oscilar bastante, assustar muita gente e, no final das contas, sair quase do mesmo lugar de onde começou.

Nosso colaborador Marcelo Moreira observa que o mercado continua operando dentro do intervalo de 14.30 a 15.00 centavos de dólar por libra-peso. O contrato com vencimento em outubro/26 segue respeitando a importante região de resistência formada pelas médias móveis de 50, 100 e 200 dias, concentradas entre 14.75 e 14.90 centavos de dólar por libra-peso. Um rompimento consistente acima de 14.90 abriria espaço para um movimento de alta em direção à próxima resistência, localizada em 15.60 centavos de dólar por libra-peso. Pelo lado do suporte, os níveis que merecem maior atenção permanecem em 14.40 e, posteriormente, em 13.90 centavos de dólar por libra-peso.

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Arnaldo Luiz Corrêa

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