O mercado de energia vive um momento de forte tensão. A escalada da guerra envolvendo os Estados Unidos e o Irã elevou significativamente o risco geopolítico no Golfo Pérsico e reacendeu preocupações sobre o fluxo de petróleo na região. O estreito de Ormuz, por onde transita aproximadamente um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo, voltou ao centro das atenções. A possibilidade de interrupções logísticas ou restrições ao tráfego marítimo fez com que o prêmio de risco da energia aumentasse rapidamente.
O reflexo desse cenário foi imediato nos preços. Apenas no acumulado do mês de março, o diesel sobe 39%, enquanto o petróleo tipo WTI avança 34% e o Brent registra alta de 26%. A gasolina sobe 16,5% e o gás natural 11,3%. Quando observamos o acumulado do ano, o movimento impressiona ainda mais: o diesel já acumula alta de 111%, o gás natural sobe 63%, o petróleo tipo WTI avança 57%, o Brent 54% e a gasolina registra valorização de 36%.
Para o mercado de açúcar, um ambiente de energia mais cara costuma ser altamente construtivo. Combustíveis fósseis mais caros tendem a elevar a competitividade do etanol, fortalecendo a paridade energética e incentivando as usinas a direcionarem uma parcela maior da cana para a produção de biocombustível. Em tese, esse processo reduz a disponibilidade de açúcar para exportação e deveria pressionar os preços internacionais para cima.
Ao mesmo tempo, surgiu uma notícia relevante do lado da oferta global. A Índia divulgou sua segunda estimativa de produção de açúcar para a safra 2025/26, reduzindo a projeção para 28.3 milhões de toneladas, já considerando o desvio de açúcar para etanol. Na estimativa anterior, o número era de 29.6 milhões de toneladas. Diante dessa revisão e da grande diferença entre o preço doméstico indiano e o preço internacional, tudo indica que dificilmente a Índia será exportadora relevante de açúcar nesta temporada. O mercado interno, dependendo da qualidade, varia entre 18.25 e 20.25 centavos de dólar por libra peso.
Com energia disparando e produção indiana revisada para baixo, seria natural esperar uma reação mais consistente do mercado de açúcar em Nova York. No entanto, o comportamento recente do mercado parece desafiar essa lógica. Como se estivesse vivendo em uma galáxia distante, o açúcar praticamente não reagiu.
O contrato com vencimento em maio de 2026 encerrou a semana cotado a 14.09 centavos de dólar por libra-peso, acumulando uma alta de apenas 17 pontos na semana, o equivalente a menos de quatro dólares por tonelada. O contrato julho terminou a semana a 14.17 centavos, com ganho de 27 pontos, algo próximo de seis dólares por tonelada. Em outras palavras, diante de tantas notícias potencialmente altistas, o mercado fez muito pouco.
No mercado doméstico brasileiro surge ainda outro fator que pode ganhar relevância nas próximas semanas. A defasagem entre o preço da gasolina praticado pela Petrobras nas refinarias e o preço internacional já se aproxima de 29%. Caso ocorra um reajuste dessa magnitude, o efeito imediato seria fortalecer ainda mais a competitividade do etanol. Isso tenderia a incentivar as usinas do Centro-Sul a maximizar a produção de etanol no início da safra, reduzindo naturalmente a quantidade de açúcar disponível para exportação. Já existe grande preocupação em relação ao possível desabastecimento de diesel. Usinas estão preocupadas.
Mesmo com todos esses elementos construtivos, o mercado segue pressionado pela atuação dos fundos. De acordo com o relatório COT (Commitment of Traders), divulgado pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission), os fundos permanecem agressivamente vendidos, com uma posição líquida de aproximadamente 241,377 contratos considerando os dados até 3 de março. Esse posicionamento ajuda a explicar parte da dificuldade do mercado em reagir.
Outra possível explicação é que algumas usinas do Centro-Sul do Brasil e produtores da América Central possam ter aproveitado repetidamente as aproximações do mercado à região de 14 centavos por libra para fixar seus volumes de exportação, criando uma oferta recorrente nessa faixa de preço. A desvalorização do real também contribuiu para limitar uma reação mais expressiva. Na sexta-feira o câmbio chegou a R$ 5.3200 por dólar e, no momento em que este comentário é escrito, o real acumula uma desvalorização de cerca de 2,5% na semana.
Quando observamos os preços convertidos em reais, contudo, a situação já apresenta melhora. Considerando uma média aritmética simples das curvas de Nova York convertidas para a moeda brasileira, a safra 2026/27 apresentou valorização aproximada de 123 reais por tonelada na semana. A safra 2027/28 melhorou cerca de 136 reais por tonelada, enquanto a 2028/29 avançou aproximadamente 113 reais por tonelada.
Isso sugere que possivelmente já tenhamos observado os níveis mais baixos de preços em reais por tonelada. Ainda assim, os valores atuais continuam bastante distantes da média histórica. Se tomarmos a cotação do açúcar em Nova York, convertê-la para reais e ajustá-la pela inflação dos últimos quinze anos, chegamos a um valor equivalente próximo de 2.600 reais por tonelada.
O quadro atual, portanto, é curioso. Temos um choque geopolítico elevando os preços da energia, uma revisão para baixo da produção indiana, um ambiente potencialmente mais favorável ao etanol e um câmbio que melhora a remuneração das exportações brasileiras. Quase todos os fundamentos apontam para um cenário mais construtivo para o açúcar. Ainda assim, o mercado continua se comportando com uma apatia difícil de explicar.
Quando um mercado insiste em ignorar os fundamentos por muito tempo, normalmente é apenas uma questão de tempo até que a realidade se imponha. Resta saber quando — e com que intensidade — isso irá acontecer.
Nosso colaborador Marcelo Moreira observa que o vencimento maio-26 teve uma semana pressionada e só conseguiu reagir no último pregão, acompanhando a alta do petróleo. Os preços negociados ao longo da semana foram, respectivamente, fechamento anterior em 13,92 centavos de dólar por libra-peso, máxima de 14,29, mínima de 13,61 e fechamento atual em 14,09 centavos de dólar por libra-peso. O contrato chegou a negociar brevemente acima da média móvel de 50 dias, situada em 14,16 centavos de dólar por libra-peso. Caso essa média seja rompida de forma consistente, os próximos objetivos técnicos estariam em 14,94 e 15,44 centavos por libra. Por outro lado, os suportes relevantes permanecem em 13,86 e 13,40 centavos de dólar por libra-peso.
Esse é o momento de aprender como se proteger em um ambiente de mercado como este. Estão abertas as inscrições para o Curso Avançado de Futuros, Opções e Derivativos – Commodities Agrícolas. O curso presencial será realizado nos dias 24 e 25 de março de 2026, em São Paulo. As vagas são limitadas. Informações e inscrições pelo e-mail priscilla@archerconsulting.com.br.
Tenham todos um excelente final de semana.
Arnaldo Luiz Corrêa