O mercado futuro de açúcar em NY encerrou mais uma semana com o pé direito. O contrato outubro/26 fechou negociado a 18.02 centavos de dólar por libra-peso, alta de 46 pontos em relação à sexta-feira anterior, depois de ter testado, no melhor momento da semana, a máxima dos últimos dezesseis meses. O março/27 acompanhou o embalo e subiu 42 pontos, encerrando um pouco abaixo dos 19 centavos — algo como 9 dólares a mais por tonelada. Os vencimentos que correspondem à safra 27/28 do Centro-Sul fecharam, na média, entre 28 e 30 pontos de valorização, aproximadamente 6.50 dólares por tonelada, enquanto a 28/29 se saiu um pouco melhor: 48 pontos na média, ou 10.50 dólares por tonelada. Ou seja, a curva subiu inteira, do primeiro ao último vagão.
Os fundos, como era de se esperar, não ficaram assistindo de fora. O relatório do CFTC divulgado na sexta-feira, com a posição de 1º de setembro, mostra que eles adicionaram mais 28,500 lotes comprados, elevando a posição total para 132,496 lotes — aproximadamente 6.7 milhões de toneladas de açúcar. E repare no padrão de comportamento: o mercado varia positivamente, vem uma tomada de lucro, ele volta com força, vem outra tomada de lucro, e ele volta com força de novo. É a assinatura clássica de um mercado construtivo, que corrige sem perder a direção.
Essa construção está calcada em três grandes pilares. O primeiro é a percepção de maior inflação no mundo, que provoca uma corrida — de certa forma inevitável — para as commodities. Basta olhar o desempenho no acumulado do ano: o grupo de energia lidera com folga, com o óleo de aquecimento subindo 360%, a gasolina 200%, o petróleo Brent 122% e o WTI 96%. Entre as softs, o algodão acumula alta de 19% e o açúcar, de 17%. Quando o dinheiro foge da inflação, ele costuma se esconder atrás de coisas que se plantam, se extraem ou se queimam.
O segundo pilar é o clima. O El Niño ainda pode fazer novas vítimas: espera-se quebra na safra tailandesa e na europeia — a França deve produzir mais de 20% abaixo da média de cinco anos por conta da seca e do calor, e a produção da União Europeia somada ao Reino Unido está projetada no menor nível em onze anos. O resultado da conta é falta de disponibilidade de açúcar. Por aqui, esperam-se chuvas neste mês de setembro no Centro-Sul, atrapalhando o ritmo de colheita, e algumas usinas já trabalham com um número de cana bisada para o ano que vem em torno de 37 milhões de toneladas — um número, convenhamos, bastante espantoso. Os números da primeira quinzena de agosto ajudam a entender o nervosismo: a moagem cresceu 2%, mas a produção de açúcar caiu 7.9%, para 3.31 milhões de toneladas, enquanto o etanol subiu 6%. No acumulado da safra, o açúcar recua 11.7% e o etanol avança 14.7%, com estoques do biocombustível quase 23% maiores que os do ano passado.
O terceiro pilar é mais silencioso, mas merece atenção: as posições vendidas a descoberto de opções de compra. Se o mercado continuar subindo e essas calls chegarem ao ponto em que seus detentores precisem cobrir a posição, teremos combustível adicional para o rali — daqueles que aparecem de repente e sem pedir licença. Ainda é muito cedo para afirmar que isso vai ocorrer, mas o risco existe e pode trazer vulnerabilidade para quem está do lado errado do balcão.
No noticiário internacional, a Índia continuou sendo o personagem principal da temporada. Depois de ver os preços domésticos dispararem a níveis recordes — em Maharashtra houve negócio acima de 60 rúpias o quilo, 60% acima de julho —, o governo reagiu com o arsenal completo: quota de importação de 1 milhão de toneladas de açúcar bruto isenta de imposto (a primeira em cerca de dez anos), limites de estoque para intermediários e consumidores industriais, quotas quinzenais de venda e fiscalização física nos armazéns. O preço ex-usina já cedeu perto de 20%, mas o recado ao mercado mundial ficou dado: a Índia está fora do jogo exportador e pode, dependendo da monção, virar compradora relevante. De quebra, com o açúcar valendo tanto no mercado interno, desviar cana para o etanol virou mau negócio por lá — o programa de mistura que se cuide.
Do lado da demanda, nem tudo é euforia. A China deve importar cerca de 4.5 milhões de toneladas, contra 5.3 milhões no ciclo passado, embalada por uma safra doméstica perto de 13 milhões de toneladas; a Indonésia limitou a quota industrial de 2026 a aproximadamente 3.1 milhões de toneladas, a menor em sete anos, em nome da autossuficiência. E o Paquistão, fiel ao seu estilo, decidiu exportar 108 mil toneladas do açúcar que havia importado meses atrás — o eterno ciclo exporta-importa-exporta que já virou folclore no mercado. São contrapesos reais à narrativa de déficit — que as consultorias de mercado já estimam em até 3.2 milhões de toneladas para 2026/27 —, mas, por enquanto, o mercado prefere olhar para o lado da oferta.
No câmbio, o dólar teve pequena desvalorização de 0.16% até o momento em que este relatório era escrito, começando a semana em 5.1379 e devendo encerrar ao redor de 5.1300. Traduzindo em reais com o NDF, a safra 26/27 — da qual restam apenas outubro e março — subiu 17 reais por tonelada; a 27/28 ficou praticamente inalterada; e a 28/29 melhorou 30 reais. Os valores médios dessas três safras ficaram, respectivamente, em 2,236, 2,334 e 2,403 reais por tonelada. Para quem precisa fixar, a curva em reais continua oferecendo níveis historicamente confortáveis — e hedge bom é aquele que se faz enquanto ainda dá tempo, não depois que o mercado virou.
Na análise técnica, nosso colaborador Marcelo Moreira observa que o outubro/26 iniciou a semana em forte alta, com o auxílio do petróleo e das notícias sobre a redução da safra brasileira, além das novidades vindas da Índia. O indicador estocástico, que havia encerrado a semana anterior apontando venda, reverteu e ajudou a empurrar o contrato a testar a máxima dos últimos dezesseis meses, a 18.77 centavos. Após a realização de lucro, o outubro negociou na mínima semanal de 17.62 e encerrou a 18.02 — com o estocástico voltando a fechar indicando venda para a próxima semana. No curto prazo, os suportes importantes estão em 17.92, 17.65, 17.16, 16.22, 15.93 e 15.32 (a média móvel de 200 dias); as resistências, em 18.48, 18.67 e 18.77.
Por fim, uma nota de calendário: segunda-feira é feriado nos Estados Unidos (Dia do Trabalho) e também no Brasil (Independência). A semana que vem, portanto, será mais curta — e semana curta, com liquidez menor e fundos carregando 6.7 milhões de toneladas compradas, costuma amplificar qualquer solavanco. Se as questões geopolíticas resolverem contribuir com volatilidade adicional, poderemos ter dias mais conturbados. Aperte os cintos e revise o hedge.
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Bom feriado e bom descanso
Arnaldo Luiz Corrêa