UM TIRO NO PÉ

O mercado futuro de açúcar em Nova Iorque encerrou a sexta-feira com o contrato outubro/26 cotado a 14.65 centavos de dólar por libra-peso. No acumulado da semana, a perda foi de apenas 12 pontos, equivalente a pouco mais de US$ 2.50 por tonelada. Os vencimentos de março/27 a março/29 acompanharam o movimento, com queda média de 11 pontos, ou aproximadamente US$ 2.30 por tonelada. Foi, portanto, mais uma semana de pouca inspiração.

O mercado continua sem um catalisador suficientemente forte para alterar a percepção dos participantes. O petróleo permanece errático, alternando altas e baixas conforme surgem novas declarações, ameaças ou mudanças de tom do presidente dos Estados Unidos. A volatilidade é elevada, mas já se tornou parte da rotina dos mercados.

O principal problema continua sendo o etanol. Com base no fechamento da B3, o produto negocia com desconto de aproximadamente 170 pontos em relação à paridade com Nova Iorque, sinal claro das dificuldades enfrentadas pelo combustível renovável para sustentar preços. Isso ocorre mesmo após o reforço regulatório recente: o CNPE aprovou o E32, inicialmente por 180 dias, com possibilidade de renovação, e vetou a utilização do biodiesel importado na mistura obrigatória. São medidas que ampliam estruturalmente a demanda por etanol, mas ainda não foram suficientes para reverter o quadro.

No mercado físico de açúcar, a situação também inspira cautela. A demanda permanece desaquecida e já aparecem ofertas de compra ao redor de 50 pontos abaixo de Nova Iorque, evidenciando a falta de apetite dos compradores e a pressão sobre os prêmios físicos. O cenário internacional ajuda a explicar essa frouxidão. A Indonésia reduziu as importações industriais para 3.0–3.1 milhões de toneladas, o menor volume em sete anos. A China deverá importar 4.5 milhões de toneladas em 2026/27, com o Brasil respondendo por aproximadamente 80% desse total, mas continua comprando apenas em janelas pontuais.

Na outra ponta, alguns fatores limitam as quedas. A Índia mantém as exportações suspensas até setembro de 2026, enquanto os preços domésticos acumulam alta de 12% no mês. Ao mesmo tempo, o direcionamento de açúcar para a produção de etanol está travado por preços que não são reajustados há quatro anos. Por enquanto, portanto, o país continua fora do fluxo exportador.

Na União Europeia, calor e seca ameaçam as lavouras de beterraba na França, Alemanha e Polônia. Os preços europeus subiram entre 6% e 9% desde junho, fortalecendo o prêmio do açúcar branco e acrescentando algum suporte ao mercado internacional.

Os fundos, entretanto, ampliaram em 32,000 lotes suas posições vendidas. Com base no relatório referente à terça-feira, estavam aproximadamente 120,000 lotes líquidos vendidos, um posicionamento que ajuda a manter a pressão sobre as cotações, mas também aumenta o potencial de uma correção caso surja algum fato novo relevante.

Em resumo, o mercado continua preso a uma faixa estreita, sem força suficiente para definir uma direção. Uma ruptura exigirá um catalisador de maior importância: uma surpresa climática — com a Europa como candidata mais evidente —, uma mudança significativa nos fundamentos da oferta e da demanda, como a liberação de exportações pela Índia ou pelo Paquistão, ou um evento macroeconômico capaz de alterar o posicionamento dos participantes. Até lá, o açúcar deverá continuar navegando de lado, com episódios de volatilidade, mas sem tendência consistente.

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A credibilidade de uma instituição é construída ao longo de décadas, mas pode ser colocada em xeque por uma única decisão equivocada. Quando uma entidade se transforma na principal fonte de estatísticas de moagem, produção e comercialização de um setor, ela deixa de prestar serviço apenas aos seus associados e passa a desempenhar papel essencial para todo o mercado. Quanto maior a transparência, melhores serão a formação de preços, o planejamento das empresas, a gestão de risco e a qualidade das decisões.

Por isso, causam profunda preocupação os rumores que circularam nesta semana de que informações anteriormente divulgadas a cada quinzena passariam a ser publicadas com atraso de 60 dias. Caso isso se confirme, o mercado inevitavelmente tentará interpretar as razões da mudança. Surgirão suspeitas de que os números poderiam revelar uma moagem mais acelerada, uma produção superior ao esperado, uma queda nas vendas ou um mix mais açucareiro do que indicavam as estimativas.

A estratégia produziria exatamente o efeito contrário ao eventualmente pretendido. O mercado não pune a informação; pune sua ausência. Quando os dados deixam de circular, o espaço é ocupado por rumores, especulações e estimativas de qualidade duvidosa. A consequência é previsível: aumento da volatilidade, elevação dos prêmios de risco e decisões tomadas com base em incertezas, não em fatos. Se confirmado, seria um monumental tiro no pé.

Basta imaginar a reação caso a CFTC — Commodity Futures Trading Commission, agência norte-americana que regula os mercados de futuros e derivativos — decidisse retardar por dois meses a divulgação da posição dos participantes. O aumento da incerteza seria imediato, com perda de referências para a gestão de risco e maior instabilidade dos preços. Transparência não é um detalhe operacional; é um dos pilares do funcionamento eficiente dos mercados.

Esconder ou retardar informações nunca impediu uma tendência. Apenas adiou o inevitável e tornou o ajuste posterior mais brusco e doloroso. O mercado tem uma pletora de exemplos ruins. Os fundamentos acabam prevalecendo, independentemente da velocidade com que os números são divulgados.

Caso os rumores tenham fundamento, a decisão será profundamente lamentável. Mercados maduros não se fortalecem com menos informação, mas com mais. Transparência gera confiança; confiança amplia a liquidez; e liquidez reduz a volatilidade. Qualquer movimento na direção oposta representa um retrocesso institucional e um desserviço a todos os participantes.

O governo federal pratica algo semelhante — e amplamente criticado por economistas e agentes do mercado — quando interfere na formação dos preços dos combustíveis, pressionando a estatal do petróleo a retardar ou evitar reajustes por razões essencialmente políticas e eleitorais. O resultado é a distorção dos sinais de mercado, que compromete a alocação de recursos, reduz a utilização de instrumentos de hedge, como os contratos futuros de etanol negociados na B3, e penaliza diretamente os produtores do biocombustível.

Quando o preço de uma commodity deixa de refletir seus fundamentos, toda a cadeia passa a trabalhar com referências artificiais. Investimentos são postergados, mecanismos de proteção perdem utilidade e a incerteza aumenta. Em um ambiente no qual se tenta administrar o preço, surge também a tentação de administrar a informação. Em ambos os casos, o mercado acaba cobrando a conta.

A lição vale para qualquer governo, independentemente de sua orientação ideológica: quando uma empresa estatal é utilizada como instrumento de política de curto prazo, em vez de atuar segundo critérios técnicos e econômicos, toda a cadeia produtiva paga o preço. Mercados funcionam melhor quando os preços são livres, a informação é transparente e as decisões se apoiam nos fundamentos, não em conveniências políticas momentâneas. Fora do mercado livre, não há salvação.

Nosso colaborador Marcelo Moreira observa que o vencimento outubro/26 voltou a testar e respeitou o suporte em 14.37 centavos de dólar por libra-peso. O indicador estocástico virou e encerrou a semana sinalizando compra, enquanto o fechamento da sexta-feira ocorreu sobre a média móvel de 50 dias.

As próximas resistências estão em 14.70 e 14.91 centavos de dólar por libra-peso, correspondentes, respectivamente, às médias móveis de 200 e 100 dias. Caso o mercado rompa 14.91, os próximos objetivos estarão em 15.36 e 15.85 centavos. Os suportes permanecem em 14.37 e 13.96 centavos de dólar por libra-peso.

Nos dias 29 e 30 de setembro de 2026, terça e quarta-feira, das 9h às 17h, será realizado em São Paulo o Curso Avançado de Futuros, Opções e Derivativos — Commodities Agrícolas, em formato presencial. Esta será a última turma do ano para os profissionais que desejam aprofundar seus conhecimentos, tomar decisões mais consistentes, aprimorar estratégias de hedge e elevar seu nível de atuação no mercado de commodities agrícolas.

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Arnaldo Luiz Corrêa

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