{"id":12064,"date":"2025-10-03T20:28:16","date_gmt":"2025-10-03T20:28:16","guid":{"rendered":"http:\/\/archerconsulting.com.br\/artigos\/um-tigre-ou-um-gato-listrado\/"},"modified":"2025-10-03T23:29:54","modified_gmt":"2025-10-03T23:29:54","slug":"um-tigre-ou-um-gato-listrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archerconsulting.com.br\/en\/um-tigre-ou-um-gato-listrado\/","title":{"rendered":"UM TIGRE OU UM GATO LISTRADO"},"content":{"rendered":"<p>O Bar&atilde;o de Rothschild (1777-1836), &iacute;cone da dinastia banc&aacute;ria que dominou as finan&ccedil;as europeias, cunhou uma das frases mais provocativas do mercado: <em>&ldquo;Compre quando h&aacute; sangue nas ruas, mesmo que o sangue seja o seu.&rdquo;<\/em> A frase nasceu no calor das Guerras Napole&ocirc;nicas, quando boatos de derrota brit&acirc;nica fizeram os pre&ccedil;os despencarem. Enquanto todos corriam, Rothschild comprava ativos a pre&ccedil;o de liquida&ccedil;&atilde;o. Quando veio a not&iacute;cia da vit&oacute;ria inglesa, encheu os bolsos de ouro e a hist&oacute;ria o consagrou como o investidor que tinha coragem de ir contra o p&acirc;nico coletivo.<\/p>\n<p>Mais de um s&eacute;culo depois, Bob Farrell (1930&ndash;2021), estrategista-chefe da Merrill Lynch por quatro d&eacute;cadas, trouxe sua pr&oacute;pria dose de sabedoria. Criou as famosas &ldquo;10 Regras de Farrell&rdquo;, ainda citadas por gestores e traders mundo afora. A de n&uacute;mero 9 &eacute; a mais lembrada: <em>&ldquo;Quando todos os especialistas e previs&otilde;es concordam, outra coisa vai acontecer.&rdquo;<\/em> Farrell era um mestre em desconfiar do consenso, lembrando que o mercado gosta de pregar pe&ccedil;as justamente quando todos se sentem confort&aacute;veis demais.<\/p>\n<p>J&aacute; John Templeton (1912&ndash;2008), outro gigante dos investimentos, construiu sua fama durante a Grande Depress&atilde;o e a Segunda Guerra Mundial, comprando ativos justamente quando a maioria tinha medo at&eacute; de olhar para a bolsa. Sua frase ficou para a eternidade: <em>&ldquo;Os mercados de alta nascem do pessimismo, crescem com o ceticismo, amadurecem com o otimismo e morrem na euforia.&rdquo;<\/em> Templeton n&atilde;o apenas acreditava nisso &mdash; ele investia nisso.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s homens, tr&ecirc;s estilos, uma mesma filosofia: n&atilde;o andar no fluxo da massa. N&atilde;o se deixar levar pela narrativa do momento. Porque o mercado, como sabemos, adora exagerar &mdash; seja para cima, seja para baixo.<\/p>\n<p>E o a&ccedil;&uacute;car, hoje, poderia muito bem ilustrar essas m&aacute;ximas. Desde 1975, vi o mesmo roteiro repetir-se dezenas de vezes. Mercados que embalam todos num coro altista &mdash; como o cacau em 2024, atingindo os inacredit&aacute;veis US$ 10.000\/tonelada antes de despencar mais de 50%; o a&ccedil;&uacute;car em 2023, que durante o Sugar Dinner brasileiro flertava com os 29 centavos\/libra-peso, para depois derreter at&eacute; 19; ou o caf&eacute; robusta em Londres, que explodiu para mais de US$ 5.000\/tonelada e depois mergulhou para US$ 3.000 em menos de sete meses. A lista &eacute; longa.<\/p>\n<p>E o inverso tamb&eacute;m se repete: mercados em baixa, em que todo mundo vira profeta do desastre. O a&ccedil;&uacute;car vive esse momento agora: a cada manchete, a cada boato, aparece mais uma narrativa baixista. E o exemplo mais recente foi a entrega f&iacute;sica.<\/p>\n<p>Os livros acad&ecirc;micos de commodities &mdash; como os da professora francesa H&eacute;lyette Geman, que teve entre seus orientandos ningu&eacute;m menos que Nassim Taleb &mdash; ensinam que, em teoria, a entrega f&iacute;sica em bolsa representa o &uacute;ltimo recurso do vendedor. &Eacute; o equivalente a dizer: &ldquo;n&atilde;o encontrei ningu&eacute;m disposto a pagar melhor pelo meu produto, ent&atilde;o vou entregar na bolsa.&rdquo; Dentro dessa l&oacute;gica conceitual, uma entrega volumosa, como a que ocorreu nesta semana em Nova York, de nada menos que 1,5 milh&atilde;o de toneladas, deveria ser interpretada como um sinal de fraqueza, portanto baixista.<\/p>\n<p>Mas os mercados raramente se comportam de acordo com os manuais. Na pr&aacute;tica, a entrega f&iacute;sica pode esconder estrat&eacute;gias comerciais complexas que v&atilde;o muito al&eacute;m da simples falta de comprador. O problema &eacute; que n&atilde;o temos acesso ao &ldquo;livro&rdquo; completo de cada participante &mdash; que inclui n&atilde;o s&oacute; o fluxo f&iacute;sico da mercadoria, mas tamb&eacute;m a movimenta&ccedil;&atilde;o de spreads, coberturas cruzadas e opera&ccedil;&otilde;es estruturadas que escapam &agrave; an&aacute;lise superficial. &Eacute; como tentar decifrar um quebra-cabe&ccedil;a de mil pe&ccedil;as olhando apenas para uma ou duas: a imagem que se forma &eacute; sempre incompleta e, muitas vezes, enganosa.<\/p>\n<p>Conclus&atilde;o? Teoria e pr&aacute;tica nem sempre se abra&ccedil;am no mercado de commodities. A entrega pode, sim, ser um ind&iacute;cio de press&atilde;o baixista, mas pode tamb&eacute;m revelar ajustes t&aacute;ticos, mudan&ccedil;as de mix produtivo ou at&eacute; mesmo estrat&eacute;gias de suprimento de trading flow. Em resumo: quem tentar tirar conclus&otilde;es definitivas apenas dessa pe&ccedil;a isolada corre s&eacute;rio risco de enxergar um tigre onde havia apenas um gato listrado.<\/p>\n<p>Um executivo me disse que a trading chinesa que recebeu parte desse a&ccedil;&uacute;car provavelmente est&aacute; atendendo a uma demanda pontual de seu pa&iacute;s, que passou despercebida pelo radar concorr&ecirc;ncia. Outro especialista comentou que a trading ligada a produtores est&aacute; alterando o mix para etanol &mdash; mais lucrativo no momento &mdash; e, portanto, usou a entrega f&iacute;sica para garantir os embarques de a&ccedil;&uacute;car j&aacute; comprometidos. Ou seja, estrat&eacute;gia pura. O setor precisa pensar de forma integrada: a&ccedil;&uacute;car e etanol como vasos comunicantes, com o <em>trading flow<\/em> equilibrando a balan&ccedil;a entre oferta e pre&ccedil;o.<\/p>\n<p>NY resistiu bem e encerrou a sexta-feira com o vencimento mar&ccedil;o\/26 cotado a 16.50 centavos de d&oacute;lar por libra peso, uma leve aprecia&ccedil;&atilde;o de 15 pontos no acumulado da semana. Os vencimentos que comp&otilde;em a safra 26\/27 do Centro-Sul fecharam em alta m&eacute;dia de 11 pontos (2.50 d&oacute;lares por tonelada).<\/p>\n<p>Os n&uacute;meros da UNICA mostraram que a primeira quinzena de setembro apresentou uma moagem de 45.97 milh&otilde;es de toneladas de cana, acumulando 450.01 milh&otilde;es de toneladas. A produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car acumulada bateu 30.39 milh&otilde;es de toneladas praticamente o mesmo volume do ano passado. A ATR m&eacute;dia da safra apresenta 134.08 uma queda de 5.5 kg de ATR por tonelada. O consenso agora parece apontar para uma produ&ccedil;&atilde;o total entre 580 e 595 milh&otilde;es de toneladas de cana e entre 38.5 e 40.5 milh&otilde;es de toneladas de a&ccedil;&uacute;car. A conferir.<\/p>\n<p>Enquanto isso, nos EUA, o <em>shutdown<\/em> do governo paralisou servi&ccedil;os federais e ningu&eacute;m sabe quando o CFTC vai publicar o relat&oacute;rio <em>Commitment of Traders<\/em>. Estamos, portanto, temporariamente cegos quanto &agrave; posi&ccedil;&atilde;o dos fundos especulativos. &Eacute; como dirigir &agrave; noite sem far&oacute;is: voc&ecirc; at&eacute; segue em frente, mas sem a menor ideia do que vem na pr&oacute;xima curva.<\/p>\n<p>Nosso colaborador, Marcelo Moreira, acredita que o mar&ccedil;o-26, ap&oacute;s negociar nas m&iacute;nimas dos &uacute;ltimos 3 anos a 15,76 centavos de d&oacute;lar por libra-peso (dia 23 de setembro-25), voltou a trabalhar dentro da Banda de Bollinger dos 50 dias. Aparentemente nos 16.00 centavos de d&oacute;lar por libra-peso o mercado encontrou um \"fundo de curto prazo\". Pr&oacute;ximas resist&ecirc;ncias a 16.28 e 15.92 centavos de d&oacute;lar por libra-peso e resist&ecirc;ncias a 16.72 \/ 17.04 e 17.54 centavos de d&oacute;lar por libra-peso.<\/p>\n<p>Bom final de semana a todos.<\/p>\n<p>Arnaldo Luiz Corr&ecirc;a<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Bar&atilde;o de Rothschild (1777-1836), &iacute;cone da dinastia banc&aacute;ria que dominou as finan&ccedil;as europeias, cunhou uma das frases mais provocativas do mercado: &ldquo;Compre quando h&aacute; sangue nas ruas, mesmo que o sangue seja o seu.&rdquo; A frase nasceu no calor das Guerras Napole&ocirc;nicas, quando boatos de derrota brit&acirc;nica fizeram os pre&ccedil;os despencarem. 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