{"id":12104,"date":"2025-10-18T00:00:00","date_gmt":"2025-10-18T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/archerconsulting.com.br\/artigos\/voo-as-cegas-manual-da-falta-de-risco\/"},"modified":"2025-10-17T18:40:00","modified_gmt":"2025-10-17T18:40:00","slug":"voo-as-cegas-manual-da-falta-de-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archerconsulting.com.br\/en\/voo-as-cegas-manual-da-falta-de-risco\/","title":{"rendered":"VOO \u00c0S CEGAS: MANUAL DA FALTA DE RISCO"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais uma semana de colapso em Nova York. O a&ccedil;&uacute;car fechou cotado a 15.53 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, acumulando uma queda de 57 pontos &mdash; ou cerca de 12,50 d&oacute;lares por tonelada. A m&iacute;nima, de 15.45 centavos, foi o ponto mais baixo desde o in&iacute;cio da safra, e o movimento negativo se repetiu praticamente em todos os vencimentos at&eacute; mar&ccedil;o de 2028.<\/p>\n<p>O enredo &eacute; conhecido. Quando os fundos rolam uma posi&ccedil;&atilde;o vendida de um contrato em carrego (como era o caso do outubro\/25) para o m&ecirc;s seguinte (mar&ccedil;o\/26), o &ldquo;manual&rdquo; n&atilde;o escrito do mercado diz que eles ganham uma esp&eacute;cie de folga operacional &mdash; uma gordura &mdash; que lhes permite continuar pressionando os pre&ccedil;os at&eacute; que o novo contrato alcance o valor do anterior no momento da rolagem. Traduzindo: o mercado vira um campo de divers&atilde;o para quem quer testar os limites da paci&ecirc;ncia dos hedgers. E, pelo visto, os fundos est&atilde;o fazendo isso com a precis&atilde;o de um maestro e o prazer de um s&aacute;dico.<\/p>\n<p>Como se n&atilde;o bastasse o estrago t&eacute;cnico, h&aacute; tamb&eacute;m o humano. Segundo informa&ccedil;&otilde;es bastante confi&aacute;veis de um executivo do setor, algumas usinas que operavam com acumuladores ficaram sem as fixa&ccedil;&otilde;es de pre&ccedil;o quando o mercado caiu abaixo dos n&iacute;veis de prote&ccedil;&atilde;o. Pois &eacute;&hellip; o filme &eacute; velho, mas o elenco insiste em reprisar. Fazem as mesmas opera&ccedil;&otilde;es, esperam resultados diferentes &mdash; e se espantam quando o desfecho &eacute; o mesmo.<\/p>\n<p>No fundo, o que derruba o mercado n&atilde;o &eacute; o contrato de Nova York, mas a aus&ecirc;ncia de pol&iacute;tica de risco. Enquanto o setor continuar agindo no impulso &mdash; sem um plano estruturado de hedge, sem metas claras de gera&ccedil;&atilde;o de caixa ou retorno ao acionista &mdash; vai seguir produzindo a&ccedil;&uacute;car e destruindo valor. S&atilde;o os eternos apaixonados: acreditam mais na sorte do que na gest&atilde;o.<\/p>\n<p>Imagine um avi&atilde;o em pleno voo de cruzeiro. Tudo calmo, at&eacute; que &mdash; de repente &mdash; ele entra em uma Cumulonimbus, ou simplesmente CB, aquelas nuvens pesadas, carregadas de eletricidade e incerteza. O painel come&ccedil;a a piscar, o r&aacute;dio falha, a torre some do radar. A visibilidade &eacute; zero. O piloto n&atilde;o tem ideia de quanto tempo a tempestade vai durar, nem da for&ccedil;a das rajadas. S&oacute; resta manter o controle, confiar no treinamento e torcer para que a estrutura aguente o tranco.<\/p>\n<p>Pois &eacute;. O mercado de a&ccedil;&uacute;car est&aacute; exatamente nesse ponto: no meio da CB. Ningu&eacute;m sabe qual a intensidade da turbul&ecirc;ncia, tampouco quando o c&eacute;u vai abrir. O que se v&ecirc; s&atilde;o instrumentos confusos &mdash; pre&ccedil;os sem refer&ecirc;ncia, fundos atuando sem l&oacute;gica aparente e usinas tentando n&atilde;o perder altitude. A diferen&ccedil;a &eacute; que, no mercado, n&atilde;o existe piloto autom&aacute;tico.<\/p>\n<p>Para piorar a turbul&ecirc;ncia, o shutdown nos Estados Unidos deixou o mercado sem uma das suas principais b&uacute;ssolas: o relat&oacute;rio do CFTC (Commodity Futures Trading Commission), a ag&ecirc;ncia que regula os mercados de commodities. Sem ele, ningu&eacute;m sabe o tamanho real da posi&ccedil;&atilde;o vendida dos fundos. &Eacute; como voar sem instrumentos.<\/p>\n<p>Do lado de c&aacute;, a situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; muito diferente. As informa&ccedil;&otilde;es sobre a safra do Centro-Sul est&atilde;o fragmentadas &mdash; h&aacute; estimativas de moagem, mas pouca visibilidade sobre estoques ou ritmo efetivo de produ&ccedil;&atilde;o. Resultado: o mercado est&aacute; literalmente voando &agrave;s cegas, com os pain&eacute;is piscando, sem comunica&ccedil;&atilde;o com a torre, e sem saber se a tempestade est&aacute; passando&hellip; ou apenas come&ccedil;ando.<\/p>\n<p>O &uacute;ltimo dado confi&aacute;vel, de 23 de setembro, mostrava os fundos vendidos em 170 mil contratos. Sinceramente, n&atilde;o me surpreenderia se agora esse n&uacute;mero j&aacute; tivesse cruzado os 200 mil. Se fosse um avi&atilde;o, o alarme de &ldquo;stall&rdquo; j&aacute; estaria tocando.<\/p>\n<p>Passada a tempestade &mdash; ou pelo menos enquanto ela ainda n&atilde;o se dissipa &mdash; talvez seja hora de discutir o plano de voo do setor. Porque n&atilde;o adianta atravessar uma CB inteira se, l&aacute; na frente, ningu&eacute;m souber para onde seguir. E &eacute; justamente esse o ponto que deve pautar as conversas da pr&oacute;xima semana, durante o Sugar Dinner e os in&uacute;meros encontros paralelos: qual deve ser o discurso do setor para a safra que vem?<\/p>\n<p>&Agrave;s v&eacute;speras da semana do Sugar Dinner em S&atilde;o Paulo, vale a pena refletir sobre qual narrativa o setor deve adotar neste momento. H&aacute; um argumento s&oacute;lido &mdash; e cada vez mais dif&iacute;cil de ignorar &mdash; de que a pr&oacute;xima safra deveria priorizar o etanol desde o primeiro at&eacute; o &uacute;ltimo dia. Este exerc&iacute;cio come&ccedil;ou a ser debatido essa semana entre produtores e tradings e concordo com a tese.<\/p>\n<p>A l&oacute;gica por tr&aacute;s dessa tese &eacute; pragm&aacute;tica. O etanol tem elasticidade de pre&ccedil;o: quanto maior a oferta, maior a capacidade de conquistar mercado da gasolina, tanto no consumo interno quanto no com&eacute;rcio exterior. O aumento da produ&ccedil;&atilde;o pode pressionar os pre&ccedil;os, &eacute; verdade, mas abre espa&ccedil;o para expandir o market share e consolidar a paridade de exporta&ccedil;&atilde;o do produto brasileiro.<\/p>\n<p>H&aacute; ainda outro fator de peso: os fundos especulativos continuam fortemente vendidos em Nova York, enquanto o n&iacute;vel de fixa&ccedil;&otilde;es das usinas para a pr&oacute;xima safra permanece reduzido (nosso n&uacute;mero &eacute; de 30-32%). Caso o discurso pr&oacute;-etanol ganhe corpo e o mercado interprete esse movimento como real, o a&ccedil;&uacute;car tende a reagir &mdash; e n&atilde;o seria surpresa ver as cota&ccedil;&otilde;es se aproximando novamente dos 20 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, ou at&eacute; superando esse patamar.<\/p>\n<p>Do lado do etanol, &eacute; preciso reconhecer os limites. O produto enfrenta um teto natural de pre&ccedil;os, determinado pela paridade de 70% em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; gasolina. E, com a expectativa de uma queda de 5% a 10% nos pre&ccedil;os da gasolina, o potencial de margem no biocombust&iacute;vel fica mais restrito. O a&ccedil;&uacute;car, ao contr&aacute;rio, n&atilde;o tem teto &mdash; e essa diferen&ccedil;a pesa nas decis&otilde;es de mix.<\/p>\n<p>Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, o mix de produ&ccedil;&atilde;o &eacute; a &uacute;nica vari&aacute;vel sob controle do produtor. Todo o restante &mdash; c&acirc;mbio, petr&oacute;leo, pol&iacute;tica tribut&aacute;ria, comportamento dos fundos &mdash; est&aacute; fora do alcance do setor. Uma decis&atilde;o coordenada e consistente em torno do etanol pode gerar ganhos relevantes, inclusive em termos de percep&ccedil;&atilde;o de mercado.<\/p>\n<p>Por fim, h&aacute; um ponto tribut&aacute;rio que merece aten&ccedil;&atilde;o: uma redu&ccedil;&atilde;o do ICMS do etanol hidratado de 12% para 7% em S&atilde;o Paulo teria impacto permanente na competitividade do produto. O ambiente pol&iacute;tico, neste momento, parece receptivo a essa pauta &mdash; e mesmo que implicasse uma compensa&ccedil;&atilde;o via aumento do ICMS do a&ccedil;&uacute;car, o ganho l&iacute;quido para o setor seria expressivo.<\/p>\n<p>A UNICA divulgou a produ&ccedil;&atilde;o da segunda quinzena de setembro. A moagem atingiu 40.8 milh&otilde;es de toneladas de cana, colocando o acumulado em 490.9 milh&otilde;es de toneladas de cana. E a produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car acumulada at&eacute; agora &eacute; de 33.5 milh&otilde;es de toneladas menos de 1% acima da safra anterior no mesmo per&iacute;odo. O mix de etanol teve eleva&ccedil;&atilde;o de 2.3 pontos percentuais na quinzena refor&ccedil;ando a percep&ccedil;&atilde;o de que muitas usinas viraram a chave para o combust&iacute;vel.<\/p>\n<p>O Brasil est&aacute; pagando caro por ser o protagonista no mercado livre de a&ccedil;&uacute;car. Com cerca de 60% de participa&ccedil;&atilde;o nas exporta&ccedil;&otilde;es, em quatro anos, inundou o mundo com 127 milh&otilde;es de toneladas de a&ccedil;&uacute;car, uma m&eacute;dia de 31.8 milh&otilde;es de toneladas anuais. No acumulado desta safra (de abril-setembro), j&aacute; embarcamos 17.7 milh&otilde;es de toneladas 9% abaixo do mesmo volume do ano passado. Devemos terminar o ano safra com 32 milh&otilde;es de toneladas de a&ccedil;&uacute;car embarcadas.<\/p>\n<p>O mundo tem certeza de que o Brasil estar&aacute; sempre pronto para fornecer 32-35 milh&otilde;es de toneladas anuais para a exporta&ccedil;&atilde;o e isso d&aacute; certa tranquilidade para o comprador que fica de olho na paridade com o etanol. A iniciativa comentada acima - se for bem coordenada &ndash; pode melhorar o suporte de pre&ccedil;os.<\/p>\n<p>Para trazer mais nuvens pesadas sobre o mercado, a &Iacute;ndia informou que vai usar apenas 3.7 milh&otilde;es de toneladas de a&ccedil;&uacute;car para a fabrica&ccedil;&atilde;o de etanol. O mercado sonhava com 4.5 milh&otilde;es de toneladas, portanto, &eacute; maior a chance daquele pa&iacute;s exportar a&ccedil;&uacute;car a partir de mar&ccedil;o do ano que vem. Que fase!<\/p>\n<p>Para n&atilde;o dizer que n&atilde;o falei de flores: o Luiz Carlos Carvalho (nosso admirado Caio) disse em evento da Canaplan na semana passada em Ribeir&atilde;o Preto, que &ldquo;o canavial veio muito danificado em 2024, n&atilde;o dando tempo para recuperar em 2025 e persistem os problemas que diminuem as chances de ganho de produtividade&rdquo;. Para finalizar, ele estima a safra 2026\/2027 em 590 milh&otilde;es de toneladas de cana e produ&ccedil;&atilde;o abaixo de 40 milh&otilde;es de toneladas de a&ccedil;&uacute;car.<\/p>\n<p>Nosso colaborador Marcelo Moreira destaca: o vencimento mar&ccedil;o-26 encerrou nas m&iacute;nimas dos &uacute;ltimos 3 anos a 15,50 centavos de d&oacute;lar por libra-peso. O mar&ccedil;o-26 encerrou novamente abaixo piso da Banda de Bollinger dos 50 dias (15.56 centavos de d&oacute;lar por libra-peso). No curto prazo o mar&ccedil;o-26 continua em tend&ecirc;ncia de baixa podendo romper os 15,00 centavos de d&oacute;lar por libra-peso. No novo (e prov&aacute;vel) movimento de alta o mercado encontrar&aacute; resist&ecirc;ncias a 15.56\/15.97 \/ 16.15\/16.56\/16.84 e finalmente nos 17.56 centavos de d&oacute;lar por libra-peso. Qual ser&aacute; o gatilho para os fundos e especuladores inverterem a posi&ccedil;&atilde;o de &ldquo;vendidos para comprados&rdquo;?<\/p>\n<p>Para aqueles que est&atilde;o vindo para S&atilde;o Paulo participar do Sugar Dinner, tenham todos uma boa viagem. Estarei em alguns dos eventos e podemos trocar uma palavrinha sobre o mercado ao vivo.<\/p>\n<p>Bom final de semana e bons neg&oacute;cios<\/p>\n<p>Arnaldo Luiz Corr&ecirc;a<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Mais uma semana de colapso em Nova York. O a&ccedil;&uacute;car fechou cotado a 15.53 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, acumulando uma queda de 57 pontos &mdash; ou cerca de 12,50 d&oacute;lares por tonelada. 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