{"id":12502,"date":"2026-04-10T22:29:40","date_gmt":"2026-04-10T22:29:40","guid":{"rendered":"http:\/\/archerconsulting.com.br\/artigos\/a-distopia-do-acucar\/"},"modified":"2026-04-11T01:32:56","modified_gmt":"2026-04-11T01:32:56","slug":"a-distopia-do-acucar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archerconsulting.com.br\/en\/a-distopia-do-acucar\/","title":{"rendered":"A DISTOPIA DO A\u00c7\u00daCAR"},"content":{"rendered":"<p>Alcan&ccedil;amos apenas 25% do ano de 2026 e j&aacute; atravessamos todo tipo de turbul&ecirc;ncia que dificulta qualquer planejamento s&eacute;rio: guerras tarif&aacute;rias, invas&otilde;es, amea&ccedil;as, narrativas contradit&oacute;rias, infla&ccedil;&atilde;o ressurgente. O protagonista dessa distopia que o mundo vive &eacute; um sujeito inescrupuloso que, se tiver os c&oacute;digos de destrui&ccedil;&atilde;o em massa ao seu alcance, n&atilde;o hesitar&aacute; em us&aacute;-los. Nesse cen&aacute;rio, construir um or&ccedil;amento para uma usina de a&ccedil;&uacute;car tornou-se um exerc&iacute;cio de coragem &mdash; ou de resigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Existe uma palavra que descreve bem o mundo em que o mercado de a&ccedil;&uacute;car opera hoje: distopia. N&atilde;o a distopia liter&aacute;ria de Orwell ou Huxley, com suas alegorias cuidadosamente constru&iacute;das, mas uma vers&atilde;o mais banal e mais cruel &mdash; aquela em que as regras mudam a cada tu&iacute;te, em que uma tr&eacute;gua de dois minutos &eacute; vendida como paz duradoura, em que o petr&oacute;leo sobe e cai conforme o humor de um &uacute;nico homem, e em que o produtor de a&ccedil;&uacute;car precisa tomar decis&otilde;es de longo prazo num ambiente que n&atilde;o respeita nem o curto prazo. &Eacute; nessa distopia que as usinas brasileiras est&atilde;o tentando fixar pre&ccedil;o, planejar safra e sobreviver.<\/p>\n<p>O mercado parecia, por alguns dias, prestes a sair do pesadelo. Os conflitos no Oriente M&eacute;dio fizeram o pre&ccedil;o do petr&oacute;leo explodir, os fundos correram para cobrir suas posi&ccedil;&otilde;es vendidas a descoberto e NY chegou a subir quase 250 pontos. Era o tipo de recupera&ccedil;&atilde;o que os mais otimistas vinham esperando h&aacute; meses. Durou menos do que uma pausa para o caf&eacute;.<\/p>\n<p>Quando nosso modelo apurou o total acumulado de a&ccedil;&uacute;car de exporta&ccedil;&atilde;o fixado para a safra 26\/27 at&eacute; 31 de mar&ccedil;o, o volume surpreendeu pela acelera&ccedil;&atilde;o significativa ocorrida nos &uacute;ltimos dois meses. Fevereiro e mar&ccedil;o registraram um volume de negocia&ccedil;&atilde;o na bolsa de NY de mais de 8.5 milh&otilde;es de contratos, que se traduziu parcialmente num volume de fixa&ccedil;&atilde;o de 5.7 milh&otilde;es de toneladas &mdash; elevando o percentual acumulado de fixa&ccedil;&atilde;o da safra para 55%, a um pre&ccedil;o m&eacute;dio equivalente de 2,217 reais por tonelada FOB Santos, originados de uma fixa&ccedil;&atilde;o m&eacute;dia em NY de 16.15 centavos de d&oacute;lar por libra-peso.<\/p>\n<p>Esse percentual de fixa&ccedil;&atilde;o &eacute; um ter&ccedil;o menor do que aquele observado um ano atr&aacute;s para a safra 2025\/26, algo que j&aacute; abordamos em coment&aacute;rios anteriores. O fato &eacute; que o mercado talvez tenha subestimado o volume que as usinas ainda tinham para fixar &mdash; e esse volume travou a recupera&ccedil;&atilde;o. As usinas retardat&aacute;rias, sem alternativa, jogaram a toalha nos momentos de alta e coibiram exatamente o movimento que o mercado precisava para respirar. Isso tamb&eacute;m ocorreu essa semana com o mercado em queda.<\/p>\n<p>Os fundos, segundo o COT (Commitment of Traders),&nbsp; o relat&oacute;rio dos comitentes publicado pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission), a ag&ecirc;ncia americana reguladora do mercado de commodities, com base nos dados de ter&ccedil;a-feira dia 7 de abril, adicionaram mais 20,000 lotes vendidos &agrave; descoberto perfazendo um total de 101,000 lotes de posi&ccedil;&atilde;o short. Note o seguinte: em tr&ecirc;s semanas (per&iacute;odo entre 18 de mar&ccedil;o e 7 de abril), o mercado praticamente ficou inalterado de 14.45 centavos de d&oacute;lar por libra-peso para 14.58. Nesse per&iacute;odo, os fundos compraram 104,000 lotes e o mercado subiu apenas 13 pontos. Por qu&ecirc;? As usinas retardat&aacute;rias aproveitaram o rally e fixaram o m&aacute;ximo que podiam. Mas, especificamente nessa semana, o sentimento &eacute; que aquelas em posi&ccedil;&atilde;o mais critica (leia-se, sem nenhuma fixa&ccedil;&atilde;o significativa) venderam no p&acirc;nico. E os fundos devem ter aproveitado a onda.<\/p>\n<p>O fechamento desta sexta-feira mostrou NY encerrando a 13.76 centavos de d&oacute;lar por libra-peso no vencimento maio\/26, acumulando uma perda de 120 pontos na semana, equivalentes a 26.50 d&oacute;lares por tonelada. A l&oacute;gica predominante nos preg&otilde;es parece apostar que, com a tr&eacute;gua de duas semanas concedida pelo ciclot&iacute;mico presidente americano Donald Trump &mdash; candidato volunt&aacute;rio ao Pr&ecirc;mio Nobel da Paz &mdash;, o petr&oacute;leo retornar&aacute; aos n&iacute;veis anteriores &agrave; escalada. Essa perspectiva, somada &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o do real frente ao d&oacute;lar (que chegou a negociar R$ 5,0049), alivia a press&atilde;o por reajuste da gasolina na refinaria e puxa o pre&ccedil;o do etanol para baixo.<\/p>\n<p>Para boa parcela do mercado e dos baixistas, esse quadro sinaliza que as usinas v&atilde;o virar o mix para produzir mais a&ccedil;&uacute;car. O que o mercado talvez n&atilde;o entenda &eacute; que usina tem planejamento. Mudar o mix n&atilde;o &eacute; apertar um bot&atilde;o na f&aacute;brica. As usinas j&aacute; fixadas acomodam seus volumes pela ordem de vencimento &mdash; e n&atilde;o seria surpresa que muitas j&aacute; estejam totalmente comprometidas para as entregas de maio e julho.<\/p>\n<p>Possivelmente os fundos aumentaram as posi&ccedil;&otilde;es vendidas a descoberto de ter&ccedil;a para c&aacute;, considerando que o mercado caiu mais 73 pontos, contando com a ajuda das usinas retardat&aacute;rias e com na espera de aumento da produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car. Uma aposta perigosa. Esse sentimento simplesmente n&atilde;o existe no setor. As usinas v&atilde;o continuar a preferir produzir etanol porque, pelos pre&ccedil;os de sexta-feira, vender etanol equivalia a um a&ccedil;&uacute;car de 16.50 centavos de d&oacute;lar por libra-peso &mdash; 225 pontos acima do NY. Enquanto essa paridade persistir, o argumento do mix &eacute; fic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>H&aacute; uma pergunta que toda usina deveria se fazer neste momento &mdash; e que pouqu&iacute;ssimas fazem com a seriedade necess&aacute;ria. N&atilde;o &eacute; \"essa op&ccedil;&atilde;o est&aacute; cara ou barata?\" A pergunta certa &eacute;: quanto custa evitar um erro grave? Se o mercado sobe 300 pontos e voc&ecirc; n&atilde;o tem prote&ccedil;&atilde;o, o custo &eacute; enorme. Se voc&ecirc; paga 40 pontos numa call e n&atilde;o a utiliza, o custo &eacute; controlado. O custo da prote&ccedil;&atilde;o &eacute;, quase sempre, menor do que o custo de estar errado. Essa aritm&eacute;tica simples desaparece nos momentos em que o mercado parece comportado &mdash; e ressurge com for&ccedil;a brutal quando ele n&atilde;o &eacute;.<\/p>\n<p>At&eacute; outubro, que nos parece o vencimento onde se concentra o maior percentual de a&ccedil;&uacute;car ainda a ser fixado, muita coisa pode acontecer. Esses pre&ccedil;os baixos acendem um alerta para produtores cujo custo de produ&ccedil;&atilde;o elevado os impede de pensar em renova&ccedil;&atilde;o, expans&atilde;o e investimento. Com o real se fortalecendo dessa forma n&oacute;s temos o custo de produ&ccedil;&atilde;o no Centro-Sul beirando os 18 centavos de d&oacute;lar por libra-peso FOB Santos. A queda de NY nos &uacute;ltimos dias combinada com a valoriza&ccedil;&atilde;o do real est&aacute; fazendo um estrago na receita esperada pelas usinas. &Eacute; um derretimento de 20-25% da receita. Voc&ecirc;, caro leitor e leitora, acredita em investimento na renova&ccedil;&atilde;o de canavial, ou na expans&atilde;o com esse encolhimento de recursos?<\/p>\n<p>Algumas usinas j&aacute; preveem um in&iacute;cio de safra com queda na ATR em rela&ccedil;&atilde;o ao in&iacute;cio do ano passado. Problemas clim&aacute;ticos no Brasil, &Iacute;ndia e Tail&acirc;ndia seguem no radar. O mercado ainda pode cair mais? Dif&iacute;cil encontrar base s&oacute;lida para acreditar nisso.<\/p>\n<p>O vencimento maio\/26, ap&oacute;s retornar a trabalhar dentro da banda de Bollinger dos 50 dias, perdeu a m&eacute;dia m&oacute;vel de 9 dias em 15.62 centavos e derreteu. Na sequ&ecirc;ncia, perdeu tamb&eacute;m a m&eacute;dia m&oacute;vel dos 50 dias em 14.36 centavos e agora encontra suportes apenas em 13.62, 13.33 e, finalmente, nos 12.90 centavos de d&oacute;lar por libra-peso. No curto prazo, o mercado precisa fechar o gap deixado entre os dias 7 e 8 de abril &mdash; entre 14.57 e 14.51 centavos &mdash; para retomar eventual potencial de tend&ecirc;ncia de alta. Fechado esse gap, as pr&oacute;ximas resist&ecirc;ncias est&atilde;o em 15.13 e 15.80 centavos de d&oacute;lar por libra-peso. Essa &eacute; a vis&atilde;o t&eacute;cnica do nosso colaborador Marcelo Moreira.<\/p>\n<p>Tenham um bom descanso<\/p>\n<p>Arnaldo Luiz Corr&ecirc;a<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alcan&ccedil;amos apenas 25% do ano de 2026 e j&aacute; atravessamos todo tipo de turbul&ecirc;ncia que dificulta qualquer planejamento s&eacute;rio: guerras tarif&aacute;rias, invas&otilde;es, amea&ccedil;as, narrativas contradit&oacute;rias, infla&ccedil;&atilde;o ressurgente. 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