{"id":12717,"date":"2026-06-27T00:00:00","date_gmt":"2026-06-27T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/archerconsulting.com.br\/artigos\/o-pessimismo-tambem-tem-limite\/"},"modified":"2026-06-26T21:29:30","modified_gmt":"2026-06-26T21:29:30","slug":"o-pessimismo-tambem-tem-limite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archerconsulting.com.br\/en\/o-pessimismo-tambem-tem-limite\/","title":{"rendered":"O PESSIMISMO TAMB\u00c9M TEM LIMITE"},"content":{"rendered":"<p>O mercado futuro de a&ccedil;&uacute;car em Nova Iorque encerrou a semana em recupera&ccedil;&atilde;o. O contrato julho, cuja expira&ccedil;&atilde;o ocorre na pr&oacute;xima ter&ccedil;a-feira, fechou a 14,14 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, uma alta de 41 pontos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; semana anterior. J&aacute; o contrato outubro, que passa a ser o primeiro vencimento l&iacute;quido da curva, encerrou a 14,55 centavos por libra-peso, avan&ccedil;o de 42 pontos na semana, o equivalente a aproximadamente US$ 9,50 por tonelada.<\/p>\n<p>A rea&ccedil;&atilde;o chama a aten&ccedil;&atilde;o porque ocorreu justamente quando o humor do setor parece estar no seu pior n&iacute;vel dos &uacute;ltimos meses. Conversando com clientes, amigos e participantes do mercado, a impress&atilde;o &eacute; a mesma: o pessimismo tomou conta. N&atilde;o &eacute; um ou outro produtor preocupado. &Eacute; praticamente todo mundo olhando para o mesmo cen&aacute;rio e chegando &agrave; mesma conclus&atilde;o: pre&ccedil;os baixos por muito tempo.<\/p>\n<p>Nesta semana conversei com um amigo usineiro que resumiu muito bem esse sentimento. Na vis&atilde;o dele, a expans&atilde;o do etanol de milho ser&aacute; t&atilde;o grande que acabar&aacute; limitando qualquer recupera&ccedil;&atilde;o mais expressiva dos pre&ccedil;os. A capacidade j&aacute; contratada para entrar em opera&ccedil;&atilde;o nos pr&oacute;ximos anos, segundo ele, aumentar&aacute; significativamente a oferta de combust&iacute;vel, reduzindo a competitividade do etanol de cana e, consequentemente, diminuindo a necessidade de direcionar mais cana para a produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car em momentos de pre&ccedil;os melhores.<\/p>\n<p>Como se isso n&atilde;o bastasse, ele acredita que o Centro-Sul j&aacute; possui capacidade instalada para produzir entre 46 e 48 milh&otilde;es de toneladas de a&ccedil;&uacute;car. Em outras palavras, se houver cana suficiente, existe estrutura industrial para transformar praticamente qualquer recupera&ccedil;&atilde;o de pre&ccedil;os em aumento de produ&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E, pelo menos at&eacute; agora, o clima resolveu colaborar. As chuvas v&ecirc;m ocorrendo de forma satisfat&oacute;ria em praticamente todo o Centro-Sul, e as previs&otilde;es continuam indicando boas precipita&ccedil;&otilde;es para os pr&oacute;ximos meses. Na avalia&ccedil;&atilde;o dele, portanto, n&atilde;o existe nenhum fator que justifique imaginar pre&ccedil;os significativamente melhores em 2026 ou 2027.<\/p>\n<p>Quando perguntei sobre 2028, a resposta foi igualmente desanimadora. Segundo ele, somente uma quebra clim&aacute;tica relevante ou uma redu&ccedil;&atilde;o importante dos investimentos nos tratos culturais poderia provocar queda suficiente na oferta de cana para alterar esse quadro. Caso contr&aacute;rio, o mercado continuaria convivendo com ampla disponibilidade de mat&eacute;ria-prima e, por consequ&ecirc;ncia, pre&ccedil;os deprimidos.<\/p>\n<p>&Eacute; uma tese perfeitamente defens&aacute;vel. Mas existe um detalhe que me chama a aten&ccedil;&atilde;o. Quando todos passam a pensar exatamente da mesma maneira, normalmente vale a pena ligar o sinal amarelo. Mercado financeiro tem um h&aacute;bito curioso: ele raramente recompensa o consenso. Quando todo mundo acredita que o pre&ccedil;o s&oacute; pode cair, normalmente boa parte dessa expectativa j&aacute; est&aacute; refletida nas cota&ccedil;&otilde;es. &Eacute; justamente nesses momentos que pequenas mudan&ccedil;as de percep&ccedil;&atilde;o produzem movimentos relativamente expressivos.<\/p>\n<p>N&atilde;o estou dizendo que o mercado entrar&aacute; em uma grande tend&ecirc;ncia de alta amanh&atilde;. Estou apenas observando que o pior sentimento costuma aparecer muito pr&oacute;ximo dos piores pre&ccedil;os.<\/p>\n<p>Outro ponto importante &eacute; separar o pre&ccedil;o do contrato mais pr&oacute;ximo da estrutura completa da curva futura. &Eacute; verdade que ningu&eacute;m consegue produzir a&ccedil;&uacute;car confortavelmente a 14 centavos de d&oacute;lar por libra-peso. Mas tamb&eacute;m &eacute; verdade que o mercado j&aacute; n&atilde;o est&aacute; negociando apenas nesse n&iacute;vel. Se observarmos a m&eacute;dia dos contratos entre outubro de 2026 e mar&ccedil;o de 2027, encontramos aproximadamente 15 centavos por libra-peso. Entre maio de 2027 e mar&ccedil;o de 2028, essa m&eacute;dia sobe para cerca de 15,66 centavos. E entre maio de 2028 e mar&ccedil;o de 2029 alcan&ccedil;a aproximadamente 16,38 centavos. Ou seja, o pr&oacute;prio mercado futuro j&aacute; trabalha com uma recupera&ccedil;&atilde;o gradual dos pre&ccedil;os ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Isso fica ainda mais evidente quando analisamos alguns spreads. O diferencial entre outubro de 2027 e outubro de 2026 indica um desconto de aproximadamente 8,5% ao ano. J&aacute; entre mar&ccedil;o de 2028 e mar&ccedil;o de 2027 esse desconto diminui para cerca de 6%.<\/p>\n<p>A mensagem parece bastante clara. Existe press&atilde;o concentrada no curto prazo. Essa press&atilde;o decorre n&atilde;o apenas da percep&ccedil;&atilde;o de elevada oferta, mas tamb&eacute;m da exist&ecirc;ncia de um volume consider&aacute;vel de a&ccedil;&uacute;car ainda sem fixa&ccedil;&atilde;o de pre&ccedil;os, que pode aparecer para venda sempre que o mercado oferecer alguma oportunidade.<\/p>\n<p>No entanto, quanto mais distante o vencimento, menor &eacute; esse desconto. Em outras palavras, a pr&oacute;pria curva sugere que o excesso atual n&atilde;o dever&aacute; permanecer indefinidamente. Outro exerc&iacute;cio interessante consiste em olhar para a hist&oacute;ria. Muitas vezes temos a impress&atilde;o de que estamos vivendo um per&iacute;odo absolutamente in&eacute;dito. Quase nunca estamos.<\/p>\n<p>Tomando como refer&ecirc;ncia a m&eacute;dia dos fechamentos di&aacute;rios, o mercado permaneceu abaixo de 15 centavos por libra-peso durante aproximadamente 43 meses consecutivos entre junho de 2017 e dezembro de 2020. Antes disso, em 2015, houve outro per&iacute;odo de cerca de dez meses abaixo desse mesmo patamar.<\/p>\n<p>E existe ainda um exemplo mais longo. Durante boa parte dos anos do (des) governo Dilma Rousseff, convivemos com pre&ccedil;os deprimidos por um per&iacute;odo que se aproximou de seis anos consecutivos abaixo dos 15 centavos por libra-peso. Independentemente das raz&otilde;es econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas que explicam aquele ciclo, o fato &eacute; que o mercado permaneceu barato por muito tempo. A receita caiu (Dilma odeia o setor) e o endividamento das usinas explodiu<\/p>\n<p>Agora estamos novamente nessa situa&ccedil;&atilde;o desde novembro de 2025. Em 2026, a m&eacute;dia dos fechamentos gira em torno de 14,49 centavos por libra-peso. N&atilde;o &eacute; exatamente um ambiente que inspire entusiasmo. Mas justamente por isso talvez seja o momento de fazer uma pergunta simples: quanto desse pessimismo j&aacute; est&aacute; incorporado aos pre&ccedil;os? Na minha opini&atilde;o, talvez mais do que imaginamos.<\/p>\n<p>Nosso colaborador Marcelo Moreira lembra que, nos &uacute;ltimos 45 dias, o contrato outubro saiu de 15,88 centavos para negociar a m&iacute;nima dos &uacute;ltimos tr&ecirc;s anos em 14,74 centavos. A recupera&ccedil;&atilde;o observada nesta semana levou novamente o mercado para a regi&atilde;o das m&eacute;dias m&oacute;veis de 50, 100 e 200 dias, localizadas entre 14,70 e 14,83 centavos por libra-peso. Do ponto de vista t&eacute;cnico, trata-se de uma regi&atilde;o importante. Caso consiga romper de forma consistente a m&eacute;dia m&oacute;vel de 200 dias, o mercado poder&aacute; iniciar um movimento de alta com objetivos em 15,17, 15,82 e 16,40 centavos por libra-peso. Em um cen&aacute;rio mais otimista, o alvo seguinte passaria a ser 17,70 centavos. Ser&aacute; que isso vai acontecer? Ningu&eacute;m sabe.<\/p>\n<p>Mas existe uma diferen&ccedil;a enorme entre dizer que algo &eacute; imposs&iacute;vel e dizer que ainda n&atilde;o existem evid&ecirc;ncias suficientes para afirmar que acontecer&aacute;. Mercado n&atilde;o se move por unanimidade. Mercado se move quando a percep&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a a mudar.<\/p>\n<p>E, curiosamente, essa mudan&ccedil;a costuma come&ccedil;ar justamente quando quase ningu&eacute;m acredita nela. (vide final de 2023). Confesso que estou torcendo para esse cen&aacute;rio se concretizar. N&atilde;o apenas porque faria sentido do ponto de vista t&eacute;cnico ou porque muitos produtores voltariam a respirar um pouco mais aliviados.<\/p>\n<p>Existe tamb&eacute;m um motivo muito mais importante. Meu amigo usineiro prometeu que, se o mercado chegar aos 17,70 centavos por libra-peso, ele paga um jantar para mim em Nova Iorque. Depois de tantos anos acompanhando esse mercado, aprendi que h&aacute; poucas previs&otilde;es realmente confi&aacute;veis. Mas uma delas &eacute; praticamente infal&iacute;vel: jantar pago pelos outros sempre melhora qualquer an&aacute;lise de mercado.<\/p>\n<p>Bom fim de semana a todos.<\/p>\n<p>Arnaldo Luiz Corr&ecirc;a<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mercado futuro de a&ccedil;&uacute;car em Nova Iorque encerrou a semana em recupera&ccedil;&atilde;o. O contrato julho, cuja expira&ccedil;&atilde;o ocorre na pr&oacute;xima ter&ccedil;a-feira, fechou a 14,14 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, uma alta de 41 pontos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; semana anterior. 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