Apesar do derretimento do cenário macroeconômico global, o açúcar teve um desempenho relativamente melhor do que em momentos semelhantes do passado. O contrato com vencimento em maio de 2025 encerrou a semana cotado a 18.93 centavos de dólar por libra-peso, apenas 13 pontos abaixo do fechamento anterior — uma queda inferior a 3 dólares por tonelada. Os demais vencimentos, de julho de 2025 a outubro de 2027, registraram variações marginais, de apenas um dígito.
O ambiente macroeconômico segue exigindo paciência dos agentes de mercado, já que continua a ofuscar os fundamentos específicos do açúcar. A escalada da guerra comercial entre os Estados Unidos e diversos países, agora agravada pelas recentes retaliações da China, tem ampliado o nível de incerteza global. Esse cenário de tensão tende a impactar negativamente o sentimento dos mercados, inclusive o do açúcar, que é naturalmente sensível a movimentos econômicos mais amplos.
Ainda assim, essa pressão internacional pode abrir uma janela de oportunidade para compradores que ainda precisam fixar preços, especialmente diante da possibilidade de recuperação das cotações assim que os fundamentos voltarem ao centro das atenções. As curvas futuras mostram o açúcar sendo negociado abaixo de 18 centavos de dólar por libra-peso a partir de julho de 2026 — níveis que não se sustentam para a maioria dos competidores do Brasil. Hoje, o custo de produção brasileiro está estimado em torno de 15 centavos de dólar por libra-peso FOB, um patamar praticamente inatingível por países como Índia e Tailândia.
No câmbio, o real sofreu forte desvalorização ao longo da semana, chegando a tocar R$ 5.8543 e encerrando com queda de quase 1.5% em relação à semana anterior. Com isso, os valores médios — em reais por tonelada — dos açúcares para exportação cobrindo a safra 2025/26 do Centro-Sul subiram para 2,656 reais por tonelada, uma variação positiva de 16 reais por tonelada na semana. Para a safra 2026/27, a média alcançou 2,759 reais por tonelada, uma alta de 36 reais por tonelada, enquanto o ciclo 2027/28 foi cotado a 2,818 reais por tonelada, 33 reais por tonelada acima da semana anterior. Esses valores já consideram nossa estimativa do NDF (Non-Deliverable Forward), um contrato a termo de moeda com liquidação financeira, oferecido pelos bancos.
Entre as commodities, o grupo de energia foi o mais penalizado. O petróleo tipo WTI caiu quase 10% na semana, enquanto o Brent — referência para a Petrobras — recuou 9%. A gasolina cedeu 7,7%, e o gás natural e o diesel registraram quedas de 6%. E isso apenas nesta semana. Se ampliarmos a janela para os últimos 30 dias, o panorama permanece negativo, com destaque para o gás natural, que acumula queda de 13% no período.
As commodities metálicas também sofreram significativamente, com destaque para o cobre e a prata, ambos com quedas ao redor de 15%. Entre os grãos, a soja recuou 4%, enquanto o milho destoou com uma alta de 1,5%. Já os mercados acionários globais tiveram um mês de forte correção: o índice Dow Jones caiu 8,4%, a bolsa alemã recuou 9%, a Nasdaq acumulou perda de 10,5% e o índice Nikkei, no Japão, caiu 11,5%. Portanto, a ideia do Trump de “criar riqueza” parece estar funcionando muito bem. Só não está claro ainda para quem essa riqueza está sendo criada — mas, ao que tudo indica, vai muito bem, obrigado.
Na prática, tudo leva a crer que estamos diante de um verdadeiro cisne negro... com penugem laranja. O mundo parece caminhar para um modelo econômico que lembra mais o século XIX do que o XXI. Não sabemos o que sairá dessa trapalhada geopolítica promovida por Trump — o que sabemos é que, historicamente, em momentos como este, surgem oportunidades que não aproveitamos exatamente porque estamos mergulhados no pânico.
Lembro aqui do caso clássico da pandemia de 2020. Naquele maio caótico, o contrato futuro de julho/20 negociava a 10.25 centavos de dólar por libra-peso. O mercado operava em cash and carry — juros baixos e incertezas sobre demanda derrubavam o açúcar. Pois bem, quem teve sangue-frio para comprar julho/21 a 11.00 centavos de dólar por libra-peso ou o março/22 a 11.43 centavos, um ano depois viu o os mesmos contratos negociando a 17.84 e 16.20 centavos de dólar por libra-peso, respectivamente. Um ganho de 62% em dólar no primeiro e 42% no segundo. Nada mal para quem foi racional num ambiente histérico.
A lição é clara: pânico não combina com decisão. E, como já dizia um velho operador de mercado que conheci em Londres, “Quem grita com a tela está tentando convencer a si mesmo. O mercado não se importa com o seu desespero, nem um pouquinho.”
Marcelo Moreira, nosso colaborador, observa que o vencimento maio-25 iniciou a semana animado, negociando na máxima do período a 19,63 centavos de dólar por libra-peso. O maio-25 encerrou a 18.84 centavos de dólar por libra-peso (fechamento anterior/mínima/máxima/fechamento respectivamente a 18.96/18.72/19.63/18.84 centavos de dólar por libra-peso). O maio-25 encerrou novamente na congestão das médias-móveis dos 9/200/100 e 50 dias (agora viraram resistências importantes) a 19.22/19.17/18.85/18.83 centavos de dólar por libra-peso. Suportes agora a 18.50/18.00 e 17.39 centavos de dólar por libra-peso. O vencimento julho-25 encerrou a 18,68 centavos de dólar por libra-peso. Próximas resistências a 18.95/19.40 e 19.97 centavos de dólar por libra-peso e suportes a 18.68/18.42/18.00 e 17.50 centavos de dólar por libra-peso. O spread out-25 x março-25 encerrou estável a 35 pontos.
Um excelente final de semana a todos
Arnaldo Luiz Corrêa