FALTAM EXPLICAÇÕES, SOBRAM HISTÓRIAS

O mercado futuro de açúcar em Nova Iorque encerrou a sexta-feira com o contrato de julho de 2026 cotado a 14.06 centavos de dólar por libra-peso, acumulando uma queda de 63 pontos na semana, equivalente a aproximadamente US$ 14 por tonelada. Os demais vencimentos também acompanharam o movimento, com perdas relevantes tanto na safra 2026/27 quanto na 2027/28, confirmando que a pressão vendedora continua espalhada por toda a curva.

A deterioração do mercado coincidiu com a forte queda do petróleo. O WTI recuou de US$ 104 por barril para US$ 91.60, movimento que retirou parte importante do suporte que vinha sendo oferecido ao complexo sucroenergético. Em um mercado já fragilizado pelo aumento das apostas baixistas dos fundos, o açúcar simplesmente não resistiu.

Do ponto de vista técnico, segundo nosso colaborador Marcelo Moreira, o contrato julho-26 tentou reagir, mas encontrou um obstáculo difícil de superar. As médias móveis de 50 e 200 dias, ambas na região de 14.74 centavos por libra-peso, funcionaram como uma muralha para qualquer tentativa de recuperação. Incapaz de ultrapassar essa resistência, o mercado acabou perdendo também o suporte representado pela média móvel de 100 dias, situada em 14.43 centavos por libra-peso.

A consequência foi uma nova onda de vendas que levou o contrato a negociar na mínima semanal de 13.86 centavos por libra-peso, voltando a operar abaixo do nível psicológico dos 14 centavos. Para quem acompanha gráficos, o recado foi claro: o mercado segue tecnicamente enfraquecido. As resistências mais importantes permanecem em 14.43, 14.72 e 14.80 centavos por libra-peso. Somente uma recuperação consistente acima dessas regiões poderia recolocar os 16 centavos no radar dos participantes. Pelo lado inferior, os suportes imediatos aparecem em 13.86 e 13.48 centavos por libra-peso.

Mas talvez a parte mais interessante da semana não tenha sido a queda dos preços, e sim as explicações que começaram a surgir para justificá-la. Um experiente corretor de Nova Iorque comentou que, sempre que o açúcar se aproxima dos 14 centavos por libra-peso, começam a aparecer as teorias mais criativas do mercado. Entre elas, uma ganhou destaque nos últimos dias: a ideia de que o enfraquecimento do prêmio de branco e a recente pressão sobre os preços teriam alguma relação com a saída de um conhecido trader internacional do setor.

A explicação chega a ser divertida. Mercados globais que movimentam dezenas de milhões de toneladas por ano dificilmente mudam sua trajetória estrutural pela saída de um único profissional, por mais competente e respeitado que ele seja. É o equivalente a afirmar que a maré baixou porque um pescador resolveu trocar de praia.

Mas em períodos de escassez de notícias relevantes, o mercado costuma preencher os espaços vazios com narrativas. E as agências de notícias, naturalmente, apreciam histórias que geram cliques. Nem sempre a lógica econômica participa da conversa.

Enquanto as teorias se multiplicam, os números continuam contando uma história bem diferente. Os dados divulgados pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission) agência americana reguladora dos mercados de commodities mostraram que os fundos ampliaram novamente suas posições vendidas. Até o dia 26 de maio, a posição líquida vendida alcançava 111.538 lotes. Trata-se de uma aposta expressiva na continuidade da queda dos preços e demonstra que o dinheiro especulativo continua confortável na ponta vendedora.

Mais impressionante ainda foi a eficiência desse fluxo. Estima-se que aproximadamente 19 mil lotes adicionais vendidos tenham contribuído para uma queda de 47 pontos no mercado, uma relação próxima de 420 lotes para cada ponto de baixa. Não é uma métrica perfeita, mas ajuda a dimensionar o peso que os fundos continuam exercendo sobre a formação dos preços.

O ambiente geral tampouco inspira entusiasmo. O petróleo perdeu força. O dólar encerrou a semana próximo de R$ 5.0400. As conversas nos corredores, nos grupos de WhatsApp e nas mesas de operação tornaram-se progressivamente mais pessimistas. Cada nova projeção parece mais baixista do que a anterior. É justamente nesses momentos que vale a pena lembrar que mercado e sentimento não são a mesma coisa.

Existem dois fatores que continuam merecendo atenção. O primeiro é o preço. Em algum ponto, preços excessivamente baixos começam a gerar respostas por parte da oferta. Cada produtor possui uma estrutura de custos diferente, mas poucos conseguem celebrar cotações nessa região. Mercados podem ignorar fundamentos por algum tempo, especialmente quando os fluxos financeiros dominam a negociação. Ignorá-los para sempre, contudo, costuma ser uma tarefa mais difícil.

O segundo fator continua sendo o clima. A história do açúcar está repleta de momentos em que o consenso parecia absoluto até que uma mudança climática alterasse completamente as expectativas. Brasil, Índia e Tailândia continuam sendo variáveis fundamentais para o balanço global, independentemente do humor momentâneo dos fundos ou das manchetes da semana.

Por enquanto, o mercado parece determinado a olhar apenas para os fatores negativos. Talvez esteja correto. Talvez não. O fato é que o clima ainda não deu sua palavra final e a safra tampouco terminou de contar sua história.

Assim, encerramos a semana com um mercado fragilizado tecnicamente, pressionado pelos fundos, influenciado pela queda do petróleo e cercado por um sentimento predominantemente pessimista. Mas vale lembrar que os mercados costumam ser mais perigosos quando todos enxergam a mesma direção. Afinal, quando até as conversas de esquina se transformam em concursos para descobrir quem consegue ser mais baixista, talvez seja prudente manter os olhos nos fundamentos e os ouvidos um pouco menos atentos às histórias.

Bom final de semana

Arnaldo Luiz Corrêa

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