Estou de volta.
Pela primeira vez em mais de vinte anos escrevendo este comentário semanal, fui obrigado a fazer uma parada de duas semanas. O motivo foi uma pneumonia viral que me proporcionou uma temporada de sete dias na UTI de um Hospital de São Paulo. Sem qualquer intenção de fazer drama — até porque drama nunca curou ninguém — os médicos foram bastante claros ao me explicar que o caso era sério e que, se eu tivesse demorado mais quarenta e oito horas para procurar atendimento, alguns dos meus verdadeiros amigos provavelmente teriam que tirar o terno preto do armário, ensaiar expressões de profunda tristeza e distribuir elogios generosos que, por alguma razão misteriosa, costumam aparecer em abundância apenas depois que o sujeito morre.
Felizmente, esse não foi o caso. Ainda não recebi alta quando escrevo estas linhas, mas ela está próxima. Aproveito para agradecer as centenas de mensagens, e-mails, telefonemas e manifestações de carinho recebidas durante esse período. Confesso que fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que se preocuparam comigo. Também fiquei aliviado ao perceber que alguns clientes ainda lembram que eu existo mesmo quando o mercado de açúcar não está pegando fogo.
Quando alguém se vê numa situação de fragilidade física, cercado por médicos, exames, aparelhos e diagnósticos, acontece uma espécie de auditoria involuntária da própria vida. Você começa a revisar prioridades, preocupações e projetos. Descobre rapidamente que boa parte daquilo que parecia urgente não passava de barulho. No final dessa triagem mental sobram poucas coisas realmente importantes: família, amigos, saúde e propósito. O restante continua existindo, claro, mas perde um pouco daquela importância dramática que normalmente lhe atribuímos.
Durante esses dias de reflexão, uma filosofia antiga voltou repetidamente à minha cabeça: o estoicismo. Criado na Grécia e posteriormente desenvolvido pelos romanos, o estoicismo teve em Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio seus representantes mais conhecidos. E antes que alguém imagine um grupo de senhores barbudos debatendo abstrações filosóficas em algum jardim mediterrâneo, vale lembrar que esses sujeitos viveram em ambientes muito mais hostis do que qualquer reunião de orçamento, comitê de risco ou conselho de administração.
Sêneca foi senador, conselheiro e tutor de Nero. Sim, aquele Nero. Ter Nero como aluno talvez seja uma das evidências mais contundentes de que a pedagogia tem seus limites. A experiência terminou da forma menos recomendável possível: anos depois, o imperador ordenou que seu antigo mestre cometesse suicídio. Convenhamos que, comparado a isso, uma chamada de margem numa sexta-feira à tarde não parece exatamente o fim do mundo.
Epicteto nasceu escravo. Viveu boa parte da vida sem qualquer controle sobre o próprio destino e, ainda assim, tornou-se um dos maiores filósofos da história. Já Marco Aurélio governou o Império Romano enfrentando guerras, crises políticas, dificuldades econômicas e uma epidemia devastadora. Enquanto isso, nós nos desesperamos porque o açúcar caiu cinquenta pontos ou porque o câmbio resolveu andar vinte centavos na direção errada. Talvez um pouco de perspectiva histórica não faça mal a ninguém.
Mas o que essa conversa toda tem a ver com mercado de açúcar?
Mais do que parece.
O princípio central do estoicismo é distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não depende. Dependem de nós nossas decisões, nossa disciplina, nosso preparo, nosso esforço, nosso caráter e nossa capacidade de reagir aos acontecimentos. Não dependem de nós o clima, as guerras, as pandemias, as decisões de governos, os juros americanos, o comportamento dos fundos, o câmbio ou o preço do açúcar.
Essa distinção simples resolve uma quantidade surpreendente de problemas. O estoico não perde tempo reclamando da realidade. Ele aceita os fatos como são e procura agir da melhor maneira possível dentro das circunstâncias existentes. Aceitação não significa resignação. Significa apenas não desperdiçar energia lutando contra aquilo que está fora do seu controle.
Epicteto resumiu isso de forma brilhante ao afirmar que não somos perturbados pelos acontecimentos, mas pela opinião que temos sobre eles. Traduzindo para a linguagem das commodities: muitas vezes o problema não é o mercado ter caído; o problema é a posição que escolhemos carregar quando ele caiu.
Para quem trabalha com risco, hedge e derivativos, essa filosofia é extraordinariamente prática. Nenhum gestor controla o mercado. Nenhum diretor comercial controla o clima. Nenhum trader controla o câmbio. O que controlamos é a qualidade da análise, a disciplina na execução e a consistência da gestão de risco. O resultado final nunca será totalmente nosso. O processo, sim.
Na Archer passamos boa parte da vida tentando convencer clientes de que hedge não existe para acertar topo ou fundo de mercado. Hedge existe para proteger margem, preservar caixa e reduzir incerteza. Curiosamente, o estoicismo ensina algo parecido. O objetivo não é controlar os acontecimentos. O objetivo é controlar a própria reação diante deles. Quanto mais penso sobre isso, mais me convenço de que uma boa política de hedge e uma boa filosofia de vida possuem mais pontos em comum do que normalmente imaginamos.
Lembrei também da famosa história de Tales de Mileto, que viveu cerca de seiscentos anos antes de Cristo. Observando sinais que indicavam uma safra excepcional de azeitonas, ele alugou antecipadamente as prensas da região por preços baixos. Quando a colheita chegou e a demanda explodiu, ganhou uma fortuna. A lição não está na previsão. Está na preparação. Tales não controlava a safra. Apenas se posicionou de forma inteligente para se beneficiar caso ela acontecesse.
Séculos depois, Nassim Taleb bebeu em muitas fontes do pensamento clássico ao desenvolver o conceito de antifragilidade. A ideia é fascinante. O frágil quebra sob pressão. O robusto resiste à pressão. O antifrágil melhora com a pressão. Um copo de cristal é frágil. Uma pedra é robusta. Um músculo é antifrágil porque se fortalece quando submetido ao esforço adequado.
Isso vale para empresas. Algumas dependem de condições perfeitas para sobreviver. Outras conseguem suportar períodos difíceis. Mas existem aquelas que aprendem com as crises, aprimoram seus processos, fortalecem seus controles e saem melhores do que entraram. No setor de commodities, a antifragilidade costuma nascer de uma combinação de disciplina, liquidez, diversificação de clientes, gestão de risco e humildade para reconhecer aquilo que não sabemos.
Em outras palavras, o frágil teme o caos, o robusto suporta o caos e o antifrágil prospera com o caos.
Antes de encerrar, uma rápida atualização de mercado. Há três semanas, antes da minha inesperada temporada hospitalar, o contrato julho/2026 fechava a 14,06 centavos de dólar por libra-peso, com o câmbio a R$ 5,0368 por dólar, equivalente a aproximadamente R$ 1.634 por tonelada FOB Santos. Na quinta-feira, último pregão da semana, o mesmo contrato encerrou a 13,61 centavos de dólar por libra-peso e o câmbio fechou a R$ 5,1665 por dólar, equivalente a cerca de R$ 1.616 por tonelada FOB Santos.
Ou seja, muita coisa aconteceu nas últimas semanas. No mercado e fora dele. A diferença é que, depois de uma semana na UTI ouvindo médicos explicarem que seu caso é grave, a curva futura do açúcar deixa temporariamente de parecer o centro do universo. Curiosamente, alguns dias depois ela volta a parecer. Talvez isso também faça parte da condição humana.
Obrigado mais uma vez a todos que estiveram presentes durante minha recuperação. Espero voltar em breve à rotina normal, aos mercados, às reuniões, aos cursos e, naturalmente, às eternas discussões sobre açúcar, câmbio, hedge e risco. Afinal, como provavelmente diria Marco Aurélio se trabalhasse numa trading de commodities, os problemas nunca acabam; apenas mudam de contrato.
Um excelente final de semana a todos.
Arnaldo Luiz Corrêa