NÃO ESQUEÇA DA ÍNDIA

O mercado futuro de açúcar em NY encerrou esta sexta-feira com o vencimento março/2027 cotado a 20.72 centavos de dólar por libra-peso, representando um acréscimo no acumulado da semana de 47 pontos, ou cerca de 10 dólares por tonelada. O mercado segue sua trajetória de alta, agora com um pouco menos de apetite. No entanto, acreditamos que ainda há espaço para novas altas.

Os fundos continuam comprando e de acordo com o COT (Commitment Of Trader), publicado hoje pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission), agência americana responsável pela regulamentação e fiscalização dos mercados de futuros, opções e alguns derivativos, com base na posição de terça-feira passada, somavam 228,743 lotes (equivalentes a 11.62 milhões de toneladas de açúcar), numa variação de 16,184 lotes comprados na semana.

A situação na Índia pode não estar totalmente refletida nos preços. As perspectivas para a produção de açúcar na Índia na safra 2026/27 estão se deteriorando, aumentando as preocupações com a disponibilidade do produto no mercado doméstico e seus possíveis reflexos sobre o balanço mundial. Segundo informações recebidas de fontes do mercado indiano, as estimativas que anteriormente apontavam para uma produção entre 28.5 e 29 milhões de toneladas estão sendo revistas para um intervalo ainda menor, entre 28 e 28.5 milhões de toneladas.

Apesar dessa revisão, ainda existe um grau considerável de incerteza. Uma avaliação mais precisa do tamanho da safra deverá ser possível somente após cinco a seis semanas de moagem, provavelmente no final de novembro, quando os primeiros resultados industriais permitirão dimensionar melhor a disponibilidade de cana e os rendimentos de açúcar.

Outro aspecto importante diz respeito à produção de etanol. Ao contrário das estimativas que sugeriam um desvio de aproximadamente 15% da produção potencial de açúcar para a fabricação de combustível, as informações mais recentes indicam que não deverá ocorrer desvio direto de açúcar para essa finalidade.

A produção de etanol a partir da cana ficaria restrita ao chamado C Heavy Molasses, ou melaço C, subproduto residual obtido após as sucessivas etapas de cristalização e recuperação do açúcar nas usinas. Diferentemente do caldo de cana e do melaço B, cuja utilização para etanol reduz a quantidade de açúcar disponível para comercialização, o melaço C permite a fabricação de etanol sem comprometer significativamente a produção convencional de açúcar.

Existem duas razões econômicas e políticas para essa expectativa. A primeira é que os preços do açúcar no mercado doméstico indiano deverão negociar próximos ou acima de 45.000 rúpias por tonelada equivalentes a 21.50 centavos de dólar por libra-peso, proporcionando às usinas uma remuneração mais atraente do que aquela obtida com a produção de etanol. A segunda é a possibilidade de o governo indiano não destinar volumes de contratação de etanol às usinas açucareiras, preservando a produção de açúcar e garantindo o abastecimento do mercado interno. Trata-se, naturalmente, de uma possibilidade ainda sujeita às decisões das autoridades indianas.

A combinação de uma safra menor, preços domésticos elevados e prioridade ao abastecimento interno poderá alterar significativamente a posição da Índia no comércio internacional de açúcar. De acordo com essas mesmas fontes, o país poderá necessitar importar entre 1 e 3 milhões de toneladas nos próximos doze meses, um cenário que representaria uma mudança importante para um mercado que tradicionalmente acompanha a Índia como potencial fornecedora de açúcar ao mercado mundial.

Se essas projeções se confirmarem, o impacto sobre os preços internacionais poderá ser expressivo. Além da eventual ausência de exportações indianas, o mercado teria de absorver uma demanda adicional de até 3 milhões de toneladas, aumentando a pressão sobre os demais países exportadores, especialmente o Brasil.

O ponto central é que o risco para o mercado mundial não estaria mais relacionado ao volume de açúcar desviado para etanol, mas à possibilidade de a produção indiana ser insuficiente para atender ao consumo doméstico. Nesse cenário, a Índia deixaria de representar uma fonte potencial de oferta e passaria a disputar açúcar no mercado internacional, contribuindo para um balanço global mais apertado e potencialmente mais altista do que aquele atualmente considerado pelos participantes do mercado.

Mudando de foco, vale a pena observar que os valores do açúcar em NY em reais por tonelada para a safra 2027/28 devidamente incorporados com o cupom cambial até os respectivos vencimentos, mostram que se usarmos os dados corrigidos pela inflação dos últimos 16 anos temos hoje valores que estão no percentil de 25%. Isto quer dizer que em 75% dos eventos nesse intervalo de tempo os preços estiveram abaixo do nível atual. Isso tudo para dizer que uma aceleração das fixações de preço dos açúcares destinados à exportação para a próxima safra é altamente recomendada. Ah, mas o mercado pode subir mais. É verdade, principalmente analisando o cenário na Índia. No entanto, ninguém quebra com lucro no bolso. Pode-se proteger a posição efetuando operações que possibilitam a participação num eventual estresse que o mercado pode experimentar. Algumas operações com opções têm possibilitado aos nossos clientes adicionar significativos prêmios sobre o valor inicial. Não existe almoço de graça e toda remuneração maior é sempre acompanhada com uma dose de risco que se adequadamente administrada pode ser exitosa.

Pelo nosso modelo, as usinas brasileiras encerraram setembro com aproximadamente 10,53 milhões de toneladas de açúcar da safra 2027/28 já fixadas, ao preço médio de 16,70 centavos de dólar por libra-peso, equivalente a R$ 2.256,91 por tonelada. Somente em agosto, as fixações estimadas alcançaram 4,17 milhões de toneladas, enquanto setembro acrescentou mais 1,04 milhão, ao preço médio de 18,16 centavos de dólar por libra-peso. Mas qual seria o percentual da safra já fixado? Tudo depende do volume que o Brasil exportará em 2027/28. Considerando exportações de 32 milhões de toneladas, teríamos 32,9% já fixados. Se forem 30 milhões, o percentual sobe para 35,1%; se forem 34 milhões, cai para 31,0%. Portanto, divulgar percentuais de fixação sem explicitar a premissa de exportação é um exercício de adivinhação com aparência de precisão matemática. O fato é que as usinas vêm antecipando suas fixações e a recente recuperação dos preços em Nova York poderá estimular novas operações de hedge.

Nosso colaborador Marcelo Moreira acredita que apesar da valorização do mercado, existe uma dificuldade de permanecer acima dos 21 centavos de dólar por libra-peso, região que coincide com o limite superior da Banda de Bolinger de 50 dias, o que deve favorecer movimento de realização de lucros. Para ir além dos níveis atuais, será importante romper o nível de 21.03 centavos de dólar por libra-peso e depois 21.22 que é a alta mais recente. Já na direção contrária, os níveis de suporte são 20.72 e 20.09 centavos de dólar por libra-peso.

Não se esqueça que nos dias 17 e 18 de novembro, a Archer Consulting promove o Curso Avançado de Futuros, Opções e Derivativos de Commodities Agrícolas — presencial, em São Paulo, das 9 às 17 horas, no hotel Paulista Wall Street. Referência no mercado há 20 anos, o curso já formou mais de 3,000 profissionais e é ferramenta essencial para quem quer transformar a teoria dos derivativos em decisões concretas de proteção de margem. Reserve sua vaga com priscilla@archerconsulting.com.br

Tenham todos um excelente final de semana

 

Arnaldo Luiz Corrêa

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