O AÇÚCAR RESPIRA — MAS AINDA FALTA OXIGÊNIO

O mercado de açúcar em Nova York resolveu, nesta semana, dar uma pequena demonstração de dignidade — nada que leve alguém a comemorar, mas suficiente para pelo menos trocar o semblante de velório por um discreto levantar de sobrancelhas. O vencimento maio-26 encerrou a sexta-feira a 13.92 centavos de dólar por libra-peso, acumulando uma alta de 59 pontos na semana, o que equivale a aproximadamente 13 dólares por tonelada. Não é exatamente uma arrancada épica, mas, considerando o histórico recente, já serve como argumento para aquele otimista convicto dizer: “eu avisei”.

Os demais vencimentos acompanharam o movimento, ainda que com menos entusiasmo. Do julho de 26 até outubro de 28, as altas variaram entre 60 pontos nos contratos mais curtos e modestos 10 pontos nos mais longos. Traduzindo para dólares por tonelada, estamos falando de algo entre 13 e 2 dólares, respectivamente.

Os fundos, como de costume, continuam sendo os protagonistas dessa novela — e, convenhamos, também os vilões quando convém. De acordo com o COT (Commitment of Traders),  o relatório dos comitentes mais recente, publicado pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission), a agência americana reguladora do mercado de commodities, com base na posição do dia 21 de abril, eles estavam vendidos em 156,138 lotes. Uma pequena variação em relação à semana anterior, é verdade, mas o número continua suficientemente grande para manter qualquer tentativa de recuperação sob constante vigilância. É como se o mercado estivesse tentando subir com um elefante sentado no capô.

O comportamento recente dos fundos ajuda a explicar parte da frustração. Quando começaram a recomprar posições, ensaiando um movimento de alívio para as usinas, o mercado físico respondeu com uma avalanche de fixações. Usinas de diversas origens — inclusive da América Central — aproveitaram o momento para travar preços. Resultado: o rally morreu antes mesmo de ganhar nome.

Esse tipo de dinâmica reforça uma percepção importante: o mercado continua pesado. Não apenas pelos números absolutos de produção ou estoques, mas pela disposição dos agentes físicos em vender qualquer sinal de alta. É como se cada centavo adicional fosse visto não como oportunidade de valorização, mas como chance de reduzir risco. E isso, naturalmente, limita o espaço para movimentos mais consistentes.

Ainda assim, a semana trouxe um elemento novo — e talvez o único capaz de gerar algum otimismo mais estrutural no curto prazo. A aprovação do E32 pelo governo brasileiro, elevando a mistura de etanol na gasolina para 32%, surge como um fator de suporte relevante. A expectativa é de um aumento no consumo da ordem de 900 milhões a 1 bilhão de litros. Não resolve todos os problemas do mundo, mas ajuda. E, neste momento, qualquer ajuda é bem-vinda.

Se a medida for confirmada e entrar em vigor a partir de 1º de junho, como previsto, o impacto pode ser significativo para o balanço do etanol — e, por consequência, para o mix das usinas. Mais etanol significa, em tese, menos açúcar disponível. E menos açúcar disponível, em um mundo ideal, significaria preços mais altos. Claro, o mercado nem sempre vive nesse mundo ideal, mas a direção do efeito é clara.

Enquanto isso, no campo da oferta, o evento da Canaplan esta semana em Ribeirão Preto trouxe um número de safra que merece atenção: 635 milhões de toneladas de cana para o Centro-Sul. Não é apenas o número em si que chama atenção, mas quem está dizendo isso. A Canaplan tem reputação de ser conservadora. Quando ela começa a falar em números mais elevados, o mercado tende a escutar — e, mais importante, a ajustar suas expectativas.

Esse dado acende uma luz amarela — talvez até um laranja bem carregado — sobre a trajetória de preços em Nova York. Uma safra robusta, combinada com um mercado já pressionado por vendas físicas e pela posição dos fundos, cria um ambiente pouco favorável para altas mais agressivas. Em outras palavras, o mercado até pode subir, mas provavelmente vai ter que pedir licença a cada degrau.

No câmbio, tivemos uma semana relativamente tranquila. O real fechou praticamente estável, com leve valorização de 0.23%, encerrando a 4.9796 por dólar. Nada que mude drasticamente o cenário, mas suficiente para manter o radar ligado. Afinal, em um mercado onde margens já estão comprimidas, qualquer movimento cambial pode fazer diferença na decisão de fixação.

No plano macro, seguimos reféns de variáveis que fogem completamente ao controle do mercado de açúcar. As decisões de Donald Trump em relação aos conflitos internacionais continuam sendo um fator de incerteza relevante. Se haverá avanço em direção à paz ou escalada adicional, ninguém sabe ao certo. O que sabemos é que essa indefinição mantém a volatilidade viva — e, convenhamos, ela parece bastante confortável nesse papel.

Do ponto de vista técnico, há sinais interessantes, ainda que longe de configurar uma virada definitiva. Nosso colaborador Marcelo Moreira destaca que o vencimento maio 26 voltou a testar as mínimas dos últimos anos — o que, por si só, já seria suficiente para tirar o sono de muita gente — mas conseguiu reagir e superar a média móvel dos nove dias. Esse movimento, ainda que modesto, trouxe algum fôlego ao mercado e abriu espaço para uma nova tentativa de ataque à região dos 14 centavos por libra-peso, que já ganhou status de resistência quase folclórica.

Na sexta-feira, o mercado chegou a beliscar 13.96. Segundo Marcelo, esse fechamento mantém viva a possibilidade de um movimento em direção à média móvel dos 50 dias, situada na faixa de 14,30. Acima disso, o mercado começa a flertar com os 15 centavos — e aí, convenhamos, muda-se o humor, muda-se o discurso e aparecem até aqueles que juravam, há duas semanas, que o mercado só tinha uma direção.

Outro ponto relevante destacado por Marcelo é o gap formado nos dias 7 e 8 de abril, entre 14,51 e 14,57. Como bons “buracos” de mercado, esses níveis tendem a exercer uma atração quase magnética sobre os preços. Se os fundos resolverem aliviar parte da posição vendida, esse intervalo deve ser o primeiro alvo natural — não por romantismo gráfico, mas porque mercado tem memória, e às vezes ela cobra.

Mas aqui cabe um alerta: contar exclusivamente com a boa vontade dos fundos é uma estratégia que, historicamente, cobra seu preço. Eles não têm compromisso com narrativa, nem com coerência, muito menos com a paz de espírito de quem acompanha o mercado. Se houver oportunidade, eles compram. Se não houver, continuam vendidos — e eventualmente vendem mais. Algoritmos e robôs não tem coração.

No fundo, o mercado de açúcar segue preso entre forças opostas. De um lado, preços baixos que começam a flertar com níveis economicamente desconfortáveis para muitos produtores. Do outro, uma oferta potencialmente elevada e um fluxo constante de vendas que limita qualquer tentativa de recuperação mais robusta. No meio disso tudo, os fundos observam, reagem e, muitas vezes, amplificam os movimentos.

É um equilíbrio delicado, quase instável. Qualquer mudança marginal — seja no clima, no câmbio, na política energética ou no comportamento dos agentes — pode alterar significativamente a trajetória dos preços. E é justamente essa sensibilidade que mantém o mercado em estado permanente de tensão.

Diante desse cenário, talvez a melhor definição seja a de um mercado que tenta reagir, mas ainda não encontrou convicção. Há sinais positivos, sem dúvida. Mas eles convivem com fatores de risco igualmente relevantes. É como um paciente que saiu da UTI, mas ainda está longe de receber alta.

E, como todo bom mercado que se preze, o açúcar também tem seu lado místico. Porque, depois de analisar fundamentos, fluxo, técnico, macro e comportamento dos agentes, ainda sobra aquele elemento inexplicável que insiste em contrariar todas as projeções. Por isso, não custa nada seguir a recomendação tradicional: acenda a vela para o seu santo predileto. Porque, neste momento, mais do que nunca, o açúcar está precisando — e muito — de fé.

As inscrições para o Curso Presencial “A Inteligência da Comercialização de Etanol no Mercado de Combustíveis” estão abertas. O curso vai ocorrer dias 20 e 21 de maio no Hotel Travel Inn Paulista Wall Street, em São Paulo – SP, das 09 às 17 horas. Saiba mais acessando o link a seguir:  https://api.whatsapp.com/send/?phone=5511963700000

 

Bom final de semana

 

Arnaldo Luiz Corrêa

 

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