O CHÃO ESTAVA ESCORREGADIO

O mercado futuro de açúcar em Nova York deu um salto espetacular nesta semana. O contrato março/27 encerrou a sexta-feira cotado a 19.91 centavos de dólar por libra-peso, acumulando alta de 141 pontos — pouco mais de US$ 31 por tonelada. Nada mal para um mercado que, não faz muito tempo, parecia condenado ao purgatório.

E os consumidores industriais que acreditaram no blá-blá-blá de que o mercado iria buscar os 12 centavos de dólar por libra-peso porque esse seria o “chão” determinado pela paridade com o etanol agora chupam o dedo. Parece que o chão estava um pouco escorregadio. Quem deixou de fixar esperando pelos 12, 13 ou mesmo 14 centavos continua precisando comprar açúcar. Só que agora a conversa é perto dos 20. O mercado tem dessas delicadezas.

Os vencimentos seguintes, que contemplam a safra 2027/28 do Centro-Sul — de maio/27 a março/28 — também fecharam confortavelmente no azul, acumulando ganhos entre 59 e 119 pontos na semana, equivalentes a aproximadamente US$ 13-26 por tonelada.

Uma coisa chama a atenção: as usinas estão aproveitando essas altas para adicionar fixações de preços para a safra do ano que vem. Há muitas unidades com percentual de fixação já acima de 50%. É uma atitude responsável, especialmente porque a conversa hoje aponta para uma safra de cana bastante grande em 2027/28. Mercado em alta é ótimo para alimentar narrativas; para quem produz açúcar, também serve para fixar preço. Convém não esquecer esse pequeno detalhe.

Há outro aspecto particularmente interessante nesse movimento. A volumosa entrega física registrada na expiração do contrato outubro/26 poderia, pela cartilha, ser interpretada como um sinal baixista. Afinal, costuma-se dizer que a entrega na bolsa é o último recurso do vendedor: se há muito açúcar sendo entregue, seria porque faltaram compradores dispostos a pagar melhor no mercado físico. Conceitualmente, faz sentido. O problema é que o mercado tem o péssimo hábito de não ler a cartilha.

Vale olhar para a história recente. Entre as maiores entregas do vencimento outubro tivemos 2,62 milhões de toneladas em 2020, 2,82 milhões em 2023 — recorde histórico — e aproximadamente 1,70 milhão em 2024. Nos três episódios, o que se viu posteriormente foi um mercado mais firme. Ou seja, aquilo que, em princípio, deveria representar um sinal de fraqueza acabou antecedendo movimentos de alta. E, pelo menos até agora, parece que estamos assistindo novamente ao mesmo filme.

A explicação pode estar justamente no basis. Uma entrega volumosa transfere uma quantidade expressiva de açúcar para as mãos dos recebedores. Se, apesar desse volume, a demanda física permanecer firme, o basis — o prêmio ou desconto do açúcar físico em relação à bolsa — tende a se valorizar. E, se o comprador nomear os navios mais cedo do que se esperava, o basis pode valorizar.

Aliás, 2020 foi um exemplo interessante. Poucos dias depois daquela gigantesca entrega de aproximadamente 2,62 milhões de toneladas, a demanda spot continuava firme e o açúcar VHP para embarque em outubro chegou a ser negociado a apenas 40 pontos de desconto para março, nível considerado elevado diante do tamanho da entrega.

E é aí que chegamos ao ponto central: a valorização do basis costuma ser uma das últimas peças a se encaixar na consolidação de um mercado efetivamente altista. Primeiro sobe a tela. Depois, se os fundamentos confirmarem o movimento, o físico começa a cobrar seu preço. Isso não aconteceu em 2023 e por isso, esse escriba, estava sozinho acreditando que o mercado ia desabar. E desabou!  Quando o basis valoriza, a alta deixa de ser apenas uma narrativa bonita contada pela tela de futuros e começa a aparecer onde realmente importa: no bolso de quem precisa comprar açúcar.

E, por falar em tela, nosso colaborador Marcelo Moreira chama a atenção para a força técnica do movimento. O março/27 chegou a negociar a 19.96 centavos de dólar por libra-peso, máxima dos últimos três anos. Segundo Marcelo, no curto prazo os suportes estão em 19.86, 19.31, 19.00, 18.44 e 18.04 centavos de dólar por libra-peso. A resistência mais relevante aparece em 20.65 centavos. O indicador estocástico encerrou a semana ainda sinalizando “compra”, mantendo, portanto, a configuração técnica positiva.

Marcelo chama a atenção também para o comportamento do real na abertura de segunda-feira, após o resultado das eleições do fim de semana. Uma valorização expressiva da moeda brasileira poderá ajudar Nova York a testar — e eventualmente romper — a resistência dos 20.65 centavos. No sentido contrário, uma desvalorização mais forte do real poderá pressionar as cotações e colocar à prova os primeiros suportes mencionados acima.

Outro nível importante é a média móvel de 200 dias, atualmente localizada em 16.85 centavos de dólar por libra-peso. Para a manutenção da configuração técnica construtiva, é importante que o mercado continue trabalhando acima dela.

Depois de passar meses ouvindo onde estaria o chão do açúcar, talvez esteja na hora de começar a procurar o teto. E quem resolveu esperar pelo elevador no subsolo talvez descubra que ele já está chegando ao vigésimo andar.

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É triste constatar que, mais uma vez, muitos brasileiros irão às urnas com a sensação de que não estão escolhendo o melhor candidato, mas simplesmente aquele que consideram o menos ruim. É uma cena que se repete eleição após eleição e que revela muito sobre a fragilidade do nosso sistema político.

Independentemente de quem vença, tenho enorme dificuldade em enxergar perspectivas de uma transformação estrutural do país. O Brasil não mudará de patamar sem um investimento sério, consistente e de longo prazo em educação — e, sobretudo, sem o fortalecimento da cidadania e das instituições.

Precisamos de um Congresso que coloque os interesses do país acima das conveniências políticas e pessoais, ou como disse uma candidata ao Senado num ato falho, “os políticos precisam roubar menos”; de um Senado que exerça com independência e rigor suas atribuições constitucionais, inclusive na sabatina de indicados ao Supremo Tribunal Federal; e de um Judiciário que reconheça os limites institucionais de sua atuação e esteja permanentemente sujeito ao escrutínio e aos mecanismos de controle previstos pela própria democracia.

Sem instituições fortes, equilíbrio entre os Poderes, educação de qualidade e uma sociedade mais consciente de seus direitos e deveres, continuaremos discutindo nomes a cada quatro anos sem enfrentar as causas profundas dos nossos problemas.

Às vezes tenho a impressão de que transformamos a República num grande lupanar, onde os interesses particulares frequentemente parecem falar mais alto do que o interesse público. É uma imagem dura, certamente. Mas talvez mais triste seja perceber como nos acostumamos a ela.

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Bom final de semana

Arnaldo Luiz Corrêa

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