O MUNDO CONTA COM O BRASIL. O BRASIL CONTA OS DIAS DE MOAGEM

O mercado futuro de açúcar em Nova York encerrou a semana com o março de 2027 a 18.54 centavos de dólar por libra-peso, alta de 26 pontos, ou pouco menos de 6 dólares por tonelada. Não foi uma semana muito excitante, mas o preço subiu enquanto a discussão sobre a safra brasileira ficou mais séria.

A pergunta agora é: quanto açúcar o Centro-Sul conseguirá produzir? Cana, ao que tudo indica, haverá. O problema é moê-la. Muitas usinas estão fazendo as contas e concluindo que parte da matéria-prima ficará no campo para a próxima safra. As estimativas de cana bisada variam de 35 a 50 milhões de toneladas. É cana demais para tratar como nota de rodapé.

O leigo poderá sugerir que as usinas simplesmente estendam o período de moagem. Parece uma ótima solução, especialmente para quem nunca precisou parar uma usina para manutenção. Algumas unidades calculam que o serviço, quando feito internamente, exige pelo menos 120 dias. Terceirizar pode encurtar o prazo, mas custa mais caro. A manutenção não desaparece por decisão de um analista, assim como a chuva não para porque a planilha já fechou.

Por isso, aquela produção próxima de 40 milhões de toneladas de açúcar, que figurava na média das projeções de duas dezenas de consultorias, começa a parecer exageradamente otimista. Nossa estimativa é de 39,2 milhões de toneladas, mas provavelmente teremos de revisá-la para baixo. O Itaú BBA já trabalha com 38,9 milhões. E ainda há a ATR: podemos ter um bom volume de cana e uma concentração menor de açúcares, caso as chuvas continuem atrapalhando a colheita e a maturação. Tonelada de cana, por si só, não adoça ninguém.

Os números mais recentes já recomendam cautela. Segundo os dados do MAPA que acompanhamos, a moagem acumulada até agosto cresceu 2,2% em relação ao mesmo período do ano passado, mas a produção de açúcar caiu 4,8% na segunda quinzena, com mais cana destinada ao etanol. A diferença entre moer cana e produzir açúcar, que às vezes some nas apresentações mais animadas, voltou a aparecer.

E o mundo depende cada vez mais do Brasil. No início deste século, respondíamos por aproximadamente 35% do açúcar destinado ao mercado internacional. Hoje, essa participação está perto de 60%. Se a oferta brasileira encolher, não será fácil encontrar substituto. A Tailândia enfrenta estimativas de queda de 12,5% na produção; na Europa, fala-se em redução de 15% na produção de beterraba. O El Niño ainda ameaça a cana asiática. Para o mercado de açúcar branco, a combinação tampouco parece especialmente tranquilizadora. Será que NY bate os 22 centavos de dólar por libra peso?

A Índia completa o quadro. A restrição às exportações vai, em princípio, até 30 de setembro, e o novo ano-safra começa em 1º de outubro com estoques iniciais menores. A possibilidade de o país voltar a exportar volumes relevantes na próxima temporada parece remota. É nesse ambiente que surgem estimativas de déficit global entre 2 milhões e 3,5 milhões de toneladas. Como de costume, os números exatos serão conhecidos depois que o mercado já tiver cobrado a conta.

Os fundos continuam comprados. Na posição de 22 de setembro, estavam líquidos comprados em 146.790 contratos, equivalentes a cerca de 7,46 milhões de toneladas de açúcar. Reduziram a exposição, mas continuam longe de assistir ao mercado da arquibancada. Isso ajuda a sustentar os preços, embora também possa provocar correções quando resolverem realizar lucros. Fundo comprado é companhia agradável na alta; na saída, às vezes esquece de avisar.

Há argumentos baixistas, naturalmente. Os estoques ainda são confortáveis em alguns mercados, a China aumentou ligeiramente os seus, e o mix brasileiro poderia voltar ao açúcar. Também pesariam um petróleo mais fraco, um dólar mais forte ou uma realização mais agressiva dos fundos. O problema para essa tese é que, por enquanto, o receio crescente nas usinas não é escolher entre açúcar e etanol, mas saber se haverá tempo para moer toda a cana. Não adianta mudar o mix de uma cana que ficou no campo.

Ainda é cedo para decretar uma quebra da produção brasileira ou anunciar uma alta sem escalas. Mas a distância entre a cana disponível e o açúcar que efetivamente chegará ao mercado merece atenção. O mercado costuma ser muito generoso com projeções feitas no conforto do escritório. Com usina parada, chuva no canavial e comprador precisando de açúcar, o senso de humor dele muda bastante.

Segundo nosso colaborador Marcelo Moreira, os suportes do março de 2027 estão em 17,71, 16,71, 16,08 e 14,86 centavos de dólar por libra-peso. As resistências aparecem em 18,63, 19,28, 19,90 e 20,57 centavos. Com o fechamento a 18,54, a primeira delas está logo ali.

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Bom final de semana

Arnaldo Luiz Corrêa

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