O PIOR JÁ FICOU PARA TRÁS?

O mercado futuro de açúcar encerrou a semana com o contrato de outubro/26 negociado a 14.86 centavos de dólar por libra-peso, acumulando uma queda de 36 pontos no período, o equivalente a aproximadamente US$ 8 por tonelada. O movimento não ficou restrito ao primeiro vencimento. Os contratos entre março de 2027 e março de 2028 também recuaram, com perdas variando entre 9 e 29 pontos, ou algo entre US$ 2 e US$ 6 por tonelada, mostrando que a pressão vendedora se espalhou por toda a curva.

Como costuma acontecer, não existe uma única explicação para esse comportamento. O mercado é resultado da combinação de diversos fatores, e nesta semana alguns deles pesaram mais do que outros. O primeiro foi o enfraquecimento do petróleo no mercado internacional. Um petróleo mais barato reduz a atratividade dos biocombustíveis e acaba exercendo pressão sobre o etanol. A esse fator somou-se a valorização do real frente ao dólar. Embora um câmbio mais forte seja positivo para diversos segmentos da economia, para o setor sucroenergético ele reduz a competitividade das exportações e, ao mesmo tempo, torna relativamente mais barata a gasolina no mercado doméstico. Isso diminui a competitividade do etanol hidratado nas bombas e afeta as expectativas de remuneração das usinas.

Esse conjunto de fatores acabou provocando uma consequência previsível: uma aceleração das fixações de preços por parte das usinas que ainda possuíam volumes em aberto, principalmente para o vencimento de outubro. Afinal, diante de um cenário em que o etanol perde competitividade e o mercado demonstra dificuldade para sustentar altas, é natural que produtores aproveitem qualquer recuperação para travar margens.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o mercado encontra tanta resistência para subir. O contrato de outubro parece esbarrar repetidamente na região dos 15 centavos por libra-peso. Sempre que se aproxima desse nível, surge uma nova onda de vendas de origem. No caso do março de 2027, o fenômeno é semelhante, apenas deslocado para a faixa dos 16 centavos. Não se trata de uma coincidência, mas de um comportamento racional de quem ainda precisa comercializar açúcar e prefere reduzir a exposição ao risco.

Infelizmente, essa necessidade de venda hoje é, em parte, consequência de decisões que deixaram de ser tomadas no passado. Ao longo dos últimos meses o mercado ofereceu diversas oportunidades de fixação em níveis significativamente superiores aos atuais. Comentamos isso repetidas vezes em nossos relatórios. Cada empresa teve suas razões para não aproveitar aquelas janelas — seja por expectativas mais otimistas, por restrições financeiras, por questões internas de governança ou simplesmente por excesso de confiança. O fato é que essas oportunidades ficaram para trás e hoje muitas usinas acabam sendo obrigadas a fixar preços em níveis menos atrativos.

Esse é justamente um dos princípios fundamentais da gestão de risco. Ela não existe para acertar o topo do mercado. Existe para proteger margens quando elas são economicamente satisfatórias. Esperar pelo preço perfeito normalmente significa correr o risco de acabar vendendo em condições muito piores.

Apesar desse cenário menos favorável, também é importante colocar os preços atuais em perspectiva. Considerando as fixações acompanhadas de NDF (contrato a termo de dólar com liquidação financeira) para a safra 2027/28, os valores médios continuam ao redor de R$ 2,050 por tonelada FOB Santos equivalente. Não é um preço extraordinário. Está longe dos níveis que vimos em anos recentes. Mas, para uma parcela significativa das usinas brasileiras, continua sendo suficiente para remunerar adequadamente a produção, desde que os custos estejam sendo corretamente apurados.

E essa última observação merece destaque. Em muitos casos, o problema não é exatamente o preço de venda, mas a forma como o custo de produção é calculado.

Do ponto de vista de mercado, continuo acreditando que já vimos o pior desta fase de baixa. Naturalmente essa afirmação precisa ser acompanhada de uma boa dose de humildade, porque mercado não respeita convicções pessoais. Entretanto, olhando o conjunto de fundamentos, parece que uma parcela importante das notícias negativas já foi incorporada aos preços.

Daqui para frente, o foco dos participantes deverá migrar cada vez mais para as incertezas relacionadas às próximas safras da Índia e da Tailândia. A safra indiana começa efetivamente em outubro e continua cercada por dúvidas importantes sobre produtividade, disponibilidade hídrica e políticas governamentais para exportação. Na Tailândia, o mercado também acompanha atentamente a evolução do clima, já que qualquer alteração relevante na produção pode modificar significativamente o balanço mundial de açúcar.

Como comentamos na semana passada, esses dois países poderão dar um tom bastante diferente ao mercado durante os próximos meses. Se houver frustrações de produção, a percepção sobre o equilíbrio global poderá mudar rapidamente. Se, por outro lado, as safras confirmarem volumes elevados, o mercado terá dificuldades para construir um movimento consistente de recuperação.

Além disso, no Brasil ainda teremos variáveis importantes pela frente. A evolução da moagem, o comportamento do ATR, o mix de produção entre açúcar e etanol e, principalmente, as condições climáticas durante o restante da safra continuarão sendo determinantes para a formação dos preços. Ou seja, embora eu acredite que o piso esteja relativamente próximo, ainda não há elementos suficientes para afirmar que uma nova tendência de alta já esteja estabelecida.

Sob a ótica técnica, nosso colaborador Marcelo Moreira chama a atenção para um detalhe importante. O contrato outubro de 2026 chegou a testar uma recuperação durante a semana, mas acabou encerrando praticamente na mínima do período, negociado a 14.71 centavos por libra-peso. Nesse movimento, rompeu momentaneamente a importante região onde se concentram as médias móveis de 50, 100 e 200 dias, localizadas aproximadamente entre 14.82 e 14.87 centavos.

Essa faixa passa a ser um divisor de águas para o comportamento de curto prazo. Caso o mercado consiga recuperar rapidamente esses níveis e volte a encerrar acima das médias móveis, o cenário técnico volta a favorecer uma retomada da tendência de alta, com objetivos situados inicialmente em 15.50, depois 15.85 e, posteriormente, 16.54 centavos por libra-peso.

Por outro lado, se essa região deixar definitivamente de funcionar como suporte, o mercado poderá buscar patamares significativamente mais baixos. Nesse caso, os próximos níveis relevantes estariam ao redor de 14.15 e, posteriormente, 13.80 centavos por libra-peso.

E aqui cabe uma observação final. Tenho sustentado, nas últimas semanas, que provavelmente já vimos o pior do mercado. Continuo acreditando nisso. Mas mercado financeiro não distribui medalhas para quem insiste em estar certo. Se os suportes forem rompidos e os fundamentos mudarem, será preciso rever a análise. Gestão de risco exige disciplina, mas também exige humildade. Afinal, mudar de opinião diante de fatos novos não é sinal de fraqueza. Fraqueza é permanecer preso a uma convicção apenas para preservar o próprio ego. O mercado não recompensa teimosia; recompensa adaptação.

Arnaldo Luiz Corrêa

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