O PREÇO OSCILA POUCO, MAS O HUMOR OSCILA MUITO

O mercado futuro de açúcar em Nova Iorque encerrou esta sexta-feira com o contrato julho/26 cotado a 14.68 centavos de dólar por libra-peso, depois de ter beliscado os 14.91 ao longo do pregão. Na semana, a perda acumulada foi de apenas 10 pontos — o equivalente a modestos 2.20 dólares por tonelada — enquanto os demais vencimentos, de outubro/26 até março/29, fecharam de maneira bastante espalhada: alguns caíram 13 pontos, outros subiram 12, dependendo do vencimento.

O mercado futuro claramente já operava em ritmo de feriado prolongado nos Estados Unidos por conta do Memorial Day na segunda-feira. Volume reduzido, pouca convicção, operadores olhando mais para previsão do tempo, petróleo e geopolítica do que propriamente para açúcar. Aquela clássica sexta-feira americana antes de feriado: todo mundo aparentemente trabalhando, mas emocionalmente já dentro do avião.

O açúcar continua completamente à mercê de fatores exógenos. Temos uma guerra que “está para acabar” há tanto tempo que já parece série da Netflix renovada automaticamente. Toda semana surge alguém dizendo que agora vai, mas o mercado já reage com o mesmo entusiasmo de quem recebe ligação de banco oferecendo “oportunidade imperdível”. Enquanto isso, o clima segue dominando as conversas entre produtores, tradings e usinas.

O tempo seco em boa parte do Centro-Sul permitiu que a moagem continue praticamente em plena capacidade, ajudando a manter a sensação de oferta confortável. Mas dependendo da região, a conversa muda. Paraná e noroeste paulista, por exemplo, registraram chuvas importantes que interromperam moagem em algumas unidades. Ainda é cedo para medir impacto efetivo, mas também é cedo demais para decretar safra perfeita. Em açúcar, abril e maio fazem propaganda; agosto e setembro é que entregam o produto. É só lembrar o ano passado.

O El Niño continua no radar e já virou presença obrigatória em qualquer conversa de mercado. Ainda não há elementos suficientes para cravar quebra relevante de safra, perda importante de ATR ou redução expressiva de disponibilidade exportável, mas ignorar risco climático nessa altura seria tão prudente quanto fazer hedge com acumulador vendido por provedores de OTC excessivamente simpáticos.

Por enquanto, os números divulgados pela UNICA e estimados pelo mercado vieram dentro das expectativas. A moagem segue forte e o mix açucareiro gira em torno de 40%. Nada particularmente explosivo, nem para cima nem para baixo. E isso ajuda a explicar por que o mercado permanece anestesiado. Falta um gatilho convincente para tirar o açúcar dessa faixa deprimida de preços.

O etanol segue pressionado e hoje praticamente trabalha na paridade com o açúcar. Em outros momentos isso poderia automaticamente estimular aumento do mix açucareiro, mas atualmente a conta não fecha de maneira tão simples. Com dólar ao redor de R$ 5.02 e custos industriais, agrícolas, financeiros e logísticos bastante pressionados, o custo total FOB Santos do VHP gira próximo de 18 centavos de dólar por libra-peso. Sim, 18 centavos. Ou seja: estamos negociando açúcar aproximadamente 300 pontos abaixo do custo total estimado de produção FOB Santos. É uma diferença brutal.

Isso ajuda a explicar por que o mercado parece desconfortável mesmo sem conseguir reagir. Em algum momento, preços persistentemente abaixo do custo acabam produzindo consequências. O problema é que mercado de commodities tem uma impressionante capacidade de permanecer irracional por mais tempo do que muita empresa consegue permanecer solvente, como diria Keynes.

A Índia também trouxe algum ingrediente adicional nesta semana. A preocupação fiscal provocou desvalorização momentânea da rúpia frente ao dólar, embora posteriormente a moeda tenha retornado para níveis próximos de 95.60. Hoje, o mercado do açúcar em Maharashtra e Uttar Pradesh varia entre 18 e 19.50 centavos de dólar por libra-peso, muito próximo do equivalente ao açúcar branco negociado na ESALQ quando fazemos as devidas conversões.

O açúcar cristal branco PVU no mercado doméstico brasileiro também trabalha próximo de 18 centavos equivalentes. Em outras palavras: boa parte da indústria global parece atualmente presa numa situação em que quase ninguém produz com conforto econômico.

O cenário segue desanimador no curto prazo porque falta um gatilho claro de recuperação. No médio prazo, entretanto, existem dois fatores que podem mudar completamente o humor do mercado. O primeiro deles é o clima. O El Niño continua sendo o maior potencial disruptivo tanto para o Brasil quanto para partes importantes da Ásia. Qualquer deterioração climática mais consistente pode rapidamente alterar expectativas de produção, ATR e disponibilidade exportável. O segundo gatilho é o petróleo. O Brent deve encerrar a semana próximo de US$ 104 por barril e, mesmo já estando em nível elevado, ainda enxergamos potencial para preços significativamente maiores dependendo da evolução geopolítica. Vale lembrar que o Brent já variou mais de 71% neste ano, volatilidade extremamente relevante para qualquer commodity energética e, naturalmente, para o açúcar também. Petróleo mais alto fortalece etanol, melhora arbitragem energética e altera completamente a dinâmica de precificação do setor sucroenergético.

Na análise técnica, Marcelo Moreira destacou que o julho/26 voltou a respeitar a média móvel dos 200 dias, atualmente próxima de 14.84 centavos. A média móvel dos 50 dias encerrou a semana em 14.74 e segue convergindo para a dos 200 dias. Traduzindo: o mercado agora tem duas resistências importantes praticamente na mesma região. Se conseguir romper essas médias com consistência, abre espaço técnico para tentar novamente os 15.50 centavos e eventualmente até 16 centavos por libra-peso. Por enquanto, os suportes seguem em 14.45, 13.99 e 13.65 centavos. O açúcar continua andando numa corda bamba, tentando decidir se o pior já passou ou se ainda estamos apenas assistindo ao trailer do problema. E, como normalmente acontece nesses períodos, o preço oscila pouco, mas o humor oscila muito. Em commodities, aliás, humor às vezes vale mais do que matemática. Se matemática resolvesse tudo, não existiria trader quebrado dirigindo Porsche financiado.

Bom final de semana

Arnaldo Luiz Corrêa

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