O mercado futuro de açúcar em Nova York encerrou a sexta-feira com o vencimento outubro/26 a 17.56 centavos de dólar por libra-peso, apenas 4 pontos abaixo do fechamento da semana anterior, enquanto o março/27 fechou a 18.58 centavos, 5 pontos acima. Ou seja: depois de tanta emoção, a semana terminou praticamente no zero a zero nos primeiros vencimentos. O movimento interessante ficou na ponta longa da curva: os vencimentos de maio/28 a março/29 — que representam a safra 2028/2029 do Centro-Sul — fecharam em queda de aproximadamente 3 a 7 dólares por tonelada, pressionados pelas usinas que aproveitaram os níveis atuais para fixar preços justamente nesse período. Firmeza na frente, vendedor na ponta longa: a curva contou a história de quem está fazendo o dever de casa.
E emoção não faltou no meio do caminho. Depois de renovar as máximas do ciclo com alta acumulada de 27% em três semanas, o outubro/26 começou a segunda-feira com forte realização de lucros, despencando para 17.26 centavos (queda de 1.99%), pressionado por vendas de hedge de usinas brasileiras e pela aceleração da colheita no Centro-Sul com a trégua das chuvas. A terça-feira estendeu a correção — fechamento a 17.27 centavos, depois de oscilar entre 17.13 e 17.74 — com um detalhe que merecia atenção: volume expressivo de 179,695 lotes e contrato em aberto crescendo 15,470 lotes, sinal de vendedores novos entrando no mercado, e não apenas comprados embolsando ganhos. Em Londres, o branco outubro/26 recuou a 517.00 dólares por tonelada, mantendo o prêmio do branco na casa dos 134 dólares.
Quem apostou que a festa tinha acabado, porém, saiu do pregão de quinta-feira com cara de quem errou a porta. Depois de testar o suporte técnico perto de 17.10 na terça e reagir cerca de 2% na quarta, o mercado disparou na quinta-feira e rompeu com folga a resistência dos 18 centavos, fechando a 18.19 centavos (+3.4%), acompanhado pelo branco em Londres a 524.30 dólares por tonelada (+2.0%). Na sexta-feira, o outubro/26 foi além: atingiu os 18.66 centavos de dólar por libra-peso — exatamente o alvo apontado por nós há dois meses — antes de devolver os ganhos e encerrar a semana nos 17.56. O embalo contagiou o março/27, que chegou a negociar na máxima dos últimos dois anos, a 19.62 centavos, antes de fechar a 18.58. Alvo atingido, lucro realizado: o mercado fez o que costuma fazer quando chega aonde todos esperavam.
E é justamente aí que a análise técnica ganha protagonismo. Como destaca nosso colaborador Marcelo Moreira, o indicador estocástico — oscilador que mede se o mercado está esticado demais na compra ou na venda — encerrou a semana emitindo sinal de "venda" no curto prazo, coerente com a realização vista após o toque nos 18.66. Caso a correção prossiga, os próximos suportes a observar estão em 17.28, 16.22 e 15.50 centavos de dólar por libra-peso. Abaixo deles, entram em cena dois pontos de referência que todo participante do mercado acompanha de perto: as médias móveis de 100 e 200 dias, hoje em 15.14 e 14.95 centavos, respectivamente. Vale a didática: a média móvel nada mais é do que o preço médio dos últimos 100 ou 200 pregões, funcionando como o "chão" estrutural da tendência — enquanto o mercado negocia acima delas, a alta de fundo segue viva; se forem rompidas para baixo, o quadro muda de correção para reversão. Para que a tendência altista continue de pé, alerta Marcelo, esses dois suportes precisam ser respeitados. No sentido oposto, as resistências a superar estão agora em 17.56, 17.95 e 18.66 centavos de dólar por libra-peso.
Os fundamentos que sustentaram a recuperação no meio da semana vieram de todos os lados. No Centro-Sul, as chuvas de quinta-feira atrasaram a colheita e as usinas seguem priorizando etanol, favorecidas pela recuperação do preço do combustível — combinação que aperta a disponibilidade de açúcar para exportação no curto prazo. Na Europa, o Observatório do Mercado do Açúcar da UE cortou a projeção da safra 2026/27 para 13.4 milhões de toneladas, queda de 19% ante os 16.5 milhões da safra anterior, cortesia das ondas de calor e da estiagem que castigaram a beterraba. E a Índia — sempre ela! — protagonizou o vaivém da semana: a ISMA (Associação Indiana dos Fabricantes de Açúcar e Bioenergia) insiste que a oferta doméstica está "fundamentalmente sólida", analistas revisaram a expectativa de importação efetiva para no máximo 500,000 toneladas ante a cota de 1 milhão com tarifa zero, mas os preços internos bateram recordes acima de ₹ 60/kg em Maharashtra (equivalentes a 28.50 centavos de dólar por libra-peso), e o prazo para as usinas solicitarem a cota encerrou-se justamente nesta sexta-feira, com cronograma apertado de carta de crédito e obrigação de refino até 31 de outubro (mas devem estender até 30 de novembro). Ou seja: ninguém sabe ao certo quanto açúcar a Índia vai de fato comprar, e o mercado detesta não saber.
No complexo energético, a semana foi de digestão amarga: o Brent caiu 2.3% na segunda-feira e despencou 5.8% na terça, a 86.85 dólares por barril, devolvendo boa parte do prêmio geopolítico do Estreito de Ormuz — mesmo com as novas sanções americanas contra empresas ligadas ao Irã, recebidas com ceticismo por um mercado que sabe que o petróleo iraniano acaba na China. O câmbio, por sua vez, encerrou a semana de lado, com o dólar fechando a R$ 5.1855 com valorização de 0.93% na semana, sem oferecer alívio nem susto ao açúcar em moeda local.
Os fundos aumentaram suas posições compradas em 26,233 lotes agora acumulando um long de 103,970 lotes equivalentes a quase 5.3 milhões de toneladas de açúcar.
Para quem faz hedge, a lição da semana é cristalina: o mercado tocou o alvo dos 18.66 e devolveu mais de um centavo no mesmo pregão — quem aproveitou a força para travar parte do volume descoberto dormiu tranquilo; quem tentou adivinhar o topo aprendeu, mais uma vez, que topo só se conhece pelo retrovisor. E as usinas que fixaram a safra 2028/2029 nos níveis atuais mostraram exatamente o espírito da coisa: escalonar fixações nas fortes subidas de preço, manter a trava dupla USD/BRL para quem fixa preço internacional e acompanhar de perto os suportes técnicos apontados. Perseguir o topo é esporte de risco; proteger margem é seguro de sobrevivência.
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Arnaldo Luiz Corrêa