PALHA SECA E TRÊS FÓSFOROS

A semana que termina nesta sexta-feira merece um lugar na antologia dos pregões que fazem o analista ganhar humildade e o produtor ganhar cabelos brancos. Na segunda-feira, o mercado de açúcar amanheceu vestido de urso: o anúncio da retomada das negociações entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito no Oriente Médio e reabrir o Estreito de Ormuz derrubou o Brent quase 5%, para US$ 83.81 por barril, com o WTI descendo o mesmo tobogã.

Petróleo mais barato significa etanol menos competitivo frente à gasolina, o que na aritmética clássica do setor se traduz em mais cana migrando para o açúcar e mais oferta pressionando os preços. O contrato outubro/26 em Nova York obedeceu ao manual e recuou à mínima de um mês, com o branco de Londres acompanhando o movimento. O enredo parecia escrito, revisado e pronto para publicação: petróleo fraco, açúcar contido, mais um capítulo da lateralidade que vinha entediando o mercado desde julho. O mercado, porém, resolveu rasgar o roteiro ainda na terça-feira.

O primeiro sinal de que algo maior se armava não veio dos preços, mas do posicionamento. O relatório da CFTC (Commodity Futures Trading Commission) agência americana reguladora dos mercados de commodities com dados de 4 de agosto mostrou os fundos não comerciais com 195,905 lotes comprados contra 299,007 vendidos que, somados aos não reportáveis, resultam em posição líquida vendida de 91,831 lotes — o equivalente a 4.67 milhões de toneladas de açúcar vendidas a descoberto. O número já embute uma redução relevante frente ao short de quase 120,000 lotes da semana anterior, ou seja: a recompra começou antes mesmo da disparada desta sexta-feira, e ainda assim sobra munição.

Do lado comercial, o quadro vinha sendo o oposto: consumidores finais aumentaram posições compradas e usinas reduziram seus hedges de venda, sinal eloquente de que quem vive do físico já não comprava a tese baixista com o mesmo entusiasmo dos gestores. Como agravante silencioso, o prêmio do açúcar branco de Londres sobre o bruto de Nova York vinha se alargando para perto de US$ 138 por tonelada, sugerindo demanda relativamente mais firme pelo refinado. Posição vendida daquele tamanho é palha seca empilhada no quintal: inofensiva enquanto ninguém acende um fósforo. A semana, generosa, providenciou três.

O primeiro fósforo veio da Índia. Os preços domésticos bateram recorde — o atacado em Kolhapur subiu 10.2% em um mês — e a Bombay Sugar Merchants Association projetou estoques de passagem de apenas 3.5 milhões de toneladas em 1º de outubro, o menor patamar em mais de três décadas, com as usinas retendo vendas à espera de preços ainda maiores até a nova safra, em novembro. Com o banimento das exportações mantido até o fim de setembro sem qualquer sinalização de revisão, e a monção acumulando 11% abaixo da média — melhora frente aos 42% negativos do fim de junho, mas com o serviço meteorológico indiano ainda advertindo para chuvas abaixo do normal em agosto e setembro —, o segundo maior produtor mundial segue fora do jogo exportador, e o mercado internacional precifica esse vazio.

O segundo fósforo foi doméstico: os dados oficiais do Centro-Sul confirmaram que a produção de açúcar de junho despencou 26.3% na comparação anual, para 3.90 milhões de toneladas, com o acumulado da safra até 1º de julho somando 10.75 milhões de toneladas, 12.4% abaixo do ciclo anterior.

O terceiro veio de onde poucos olhavam: a Europa. A onda de calor e o estresse hídrico ameaçam agravar uma safra de beterraba já projetada em 14.2 milhões de toneladas — 8% menor que a anterior e 12% abaixo de duas safras atrás —, estimativa elaborada antes do calorão atual, com a área plantada no bloco encolhendo 14.8% em dois anos e produtores no sul da Alemanha antevendo colheita um terço menor, potencialmente a pior desde a reunificação.

Com a palha empilhada e três fósforos acesos, o resultado foi o esperado: fogueira. O açúcar passou a subir mesmo com o petróleo despencando — na quarta-feira o Brent tocou a mínima de mais de um mês, perto de US$ 78.50, e o açúcar simplesmente ignorou, numa divergência rara que deixou explícito quem manda no pregão neste momento: não é o binômio petróleo-etanol, é a oferta global. Na quinta-feira veio a disparada propriamente dita, com o outubro/26 fechando a 15.57 centavos de dólar por libra-peso, alta de 2.8% no dia, e nesta sexta a fogueira virou incêndio: o vencimento negociou na máxima dos últimos cinco meses, a 16.50 centavos, encerrando a 16.45 — mais de 14% acima do fundo tocado na segunda-feira. Para completar o quadro, o petróleo recompôs-se a US$ 83.60, deixando de ser contrapeso baixista para virar coadjuvante altista, e o dólar, após três pregões de depreciação até R$ 5.1284, estabilizou perto de R$ 5.12 com o corte da Selic para 14% — combinação que mantém a receita em reais das usinas exportadoras em território confortável, agora com a contribuição maior vindo do próprio açúcar em dólar.

Há um aspecto do pregão desta sexta que merece atenção especial. Praticamente todos os vencimentos líquidos da curva subiram em proporções semelhantes: nos dois últimos pregões, o outubro/26 avançou 146 pontos; o março/27, 150; o maio/27, 141; o julho/27, 132; e o outubro/27, 121 pontos. Esse comportamento indica que a alta não decorre apenas da recompra das posições vendidas dos fundos, normalmente mais concentrada nos vencimentos curtos. O avanço quase paralelo de toda a curva até outubro/27 revela uma compra mais abrangente, possivelmente com a participação de compradores finais que postergaram suas coberturas e agora refazem posições diante da recuperação dos preços. Essa leitura é mais construtiva do que uma simples cobertura de fundos — movimento que costuma ter alcance e duração limitados. O que estamos vendo é pressão compradora consistente em todos os vencimentos com liquidez, e a estrutura desse movimento sugere que o mercado ainda tem espaço para subir mais.

Na análise técnica, Marcelo Moreira observa que o outubro/26 "rasgou" ao romper o topo da Banda de Bollinger dos 50 dias, a 15.36 centavos de dólar por libra-peso. Conforme análise anterior, o rompimento acionou ordens de stop, e a força foi tanta que as resistências em 15.36, 15.57, 15.87, 15.97 e 16.25 foram todas superadas — níveis que agora se convertem em suportes técnicos importantes, que precisam ser respeitados para a continuidade da alta. No curto prazo, o indicador estocástico aponta mercado sobrecomprado, de modo que uma eventual correção seria bem-vinda e esperada. Os suportes atuais estão em 16.25, 16.08, 15.97, 15.87, 15.57, 15.36, 14.90, 14.70 e, finalmente, 13.86 centavos; as resistências, em 16.50, 16.63, 16.93, 17.30, 17.69 e 18.00 centavos de dólar por libra-peso.

O que esta semana ensinaé que o mercado não manda telegrama antes de mudar de direção. Quem esperava um sinal claro, uma confirmação definitiva, um convite formal para fixar, viu a janela dos 14 centavos e pouco fechar em cinco pregões sem qualquer aviso prévio. Com os fundos ainda carregando short líquido de 91,831 lotes — 4.67 milhões de toneladas que em algum momento precisarão ser recompradas —, três frentes de aperto de oferta em aberto — Índia sem exportar, Centro-Sul produzindo menos, Europa assando sob o calor — e a curva inteira sendo comprada, a alta pode não ter terminado, o que recomenda atenção redobrada aos próximos relatórios quinzenais da Unica e à evolução da monção indiana. Mas atenção não é sinônimo de torcida.

Para o produtor com volume aberto da safra 2026/27, o racional continua sendo o de sempre: escalonar fixações na alta, aproveitar o prêmio dos vencimentos mais longos e resistir à tentação de esperar o próximo centavo — porque o mercado que subiu 14% em uma semana sem pedir licença é o mesmo que pode devolver tudo com idêntica falta de cerimônia. Disciplina na política de hedge não rende boas histórias de bar, mas paga as contas. E dorme melhor.

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Arnaldo Luiz Corrêa

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