{"id":12124,"date":"2025-10-24T19:12:03","date_gmt":"2025-10-24T19:12:03","guid":{"rendered":"http:\/\/archerconsulting.com.br\/artigos\/o-mercado-prende-a-respiracao\/"},"modified":"2025-10-24T22:13:02","modified_gmt":"2025-10-24T22:13:02","slug":"o-mercado-prende-a-respiracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archerconsulting.com.br\/pt\/o-mercado-prende-a-respiracao\/","title":{"rendered":"O MERCADO PRENDE A RESPIRA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Na semana em que o a&ccedil;&uacute;car tomou conta de S&atilde;o Paulo &mdash; eventos, encontros, conversas de corredor e muito burburinho &mdash; Nova York serviu o contraponto amargo. Refletiu, dia ap&oacute;s dia, as nuvens pesadas formadas a partir das narrativas sombrias que circularam pelos sal&otilde;es. E, como costuma acontecer, o temporal desabou sobre o mercado futuro sem d&oacute; nem piedade: queda de 56 pontos (ou 12,35 d&oacute;lares por tonelada) no acumulado da semana, com o mar&ccedil;o\/26 encerrando a sexta-feira a 14.97 centavos de d&oacute;lar por libra-peso &mdash; praticamente metade do valor visto no Jantar do A&ccedil;&uacute;car de 2023. Quem poderia imaginar? O clima azedou mais r&aacute;pido que caldo de cana no sol.<\/p>\n<p>O humor do mercado, como se esperava, &eacute; de vel&oacute;rio sem caf&eacute;. As usinas lamentam o que deixaram de fazer &mdash; a perda da oportunidade de fixar bons pre&ccedil;os &mdash; e o sentimento geral &eacute; de que, agora, &ldquo;algo precisa ser feito&rdquo;. Sim, precisa. Mas fazer pol&iacute;tica de risco nesse momento &eacute; como abrir o manual de nata&ccedil;&atilde;o quando o barco j&aacute; est&aacute; afundando. Gest&atilde;o de risco exige preparo, comprometimento, disciplina, consenso e execu&ccedil;&atilde;o. Agora, resta juntar os cacos espalhados pelo ch&atilde;o, tentar aprender com o tombo e seguir em frente &mdash; porque o a&ccedil;&uacute;car n&atilde;o espera ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Como disse, a tal &ldquo;semana do a&ccedil;&uacute;car&rdquo; em S&atilde;o Paulo veio com um perfume inconfund&iacute;vel de pessimismo. As conversas e apresenta&ccedil;&otilde;es trouxeram um vi&eacute;s fortemente baixista &mdash; nas estimativas de safra de cana para o pr&oacute;ximo ano e no volume de a&ccedil;&uacute;car a ser produzido. N&uacute;meros ao vento. Podem anotar: n&atilde;o vai ser nada disso. Por qu&ecirc;? Porque quem tenta cravar, com tanta anteced&ecirc;ncia, o tamanho da safra ou a produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car, est&aacute; brincando de adivinho em dia de neblina. O mercado &eacute; um organismo vivo, cheio de vari&aacute;veis, e n&atilde;o gosta de seguir roteiro.<\/p>\n<p>Querem um exemplo fresco? Voltem a janeiro de 2023 e vejam o que diziam as previs&otilde;es para a safra 23\/24. Segundo levantamento da Novacana, as estimativas variavam entre 565 e 600 milh&otilde;es de toneladas de cana. A Archer Consulting projetava 575 milh&otilde;es &mdash; n&uacute;mero razo&aacute;vel, dentro das premissas de ent&atilde;o. At&eacute; que uma trading asi&aacute;tica &ldquo;ousou&rdquo; publicar 617 milh&otilde;es de toneladas. Foi quase linchada em pra&ccedil;a p&uacute;blica. E o que aconteceu? Fechamos o ano com 654 milh&otilde;es de toneladas! Assim &eacute;, e assim continuar&aacute; sendo. O mercado de a&ccedil;&uacute;car adora desmentir os pr&oacute;prios profetas. H&aacute; muita &aacute;gua &mdash; e muita cana &mdash; para passar por debaixo da ponte.<\/p>\n<p>Um experiente trader comentou comigo que ainda pode haver, no m&iacute;nimo, 3 milh&otilde;es de toneladas de a&ccedil;&uacute;car a serem fixadas &mdash; parte das rolagens que as usinas v&ecirc;m empurrando desde maio\/25. S&atilde;o cerca de 59 mil contratos em aberto, todos esperando um lampejo de alta nos pre&ccedil;os. Preocupante? Seria &mdash; se n&atilde;o fosse o detalhe de que os fundos est&atilde;o vendidos em algo perto de 200 mil contratos (segundo nossa estimativa). Agora imagine o estrago &mdash; ou o al&iacute;vio &mdash; se resolverem recomprar essa posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nossa avalia&ccedil;&atilde;o &eacute; que os fundos raramente carregam uma posi&ccedil;&atilde;o vendida desse tamanho em um mercado invertido, como o de mar&ccedil;o\/26 contra maio\/26. Historicamente, eles preferem zerar ou reduzir antes do fechamento do ano, para mostrar um P&amp;L mais bonito aos investidores &mdash; o Natal chega mais cedo em Wall Street.<\/p>\n<p>Temos, portanto, dois cen&aacute;rios quando o shutdown americano finalmente for resolvido. Se o CFTC (Commodity Futures Trading Commission) ag&ecirc;ncia americana reguladora dos mercados de commodities publicar uma posi&ccedil;&atilde;o vendida pr&oacute;xima a 200 mil lotes, &eacute; bem poss&iacute;vel que vejamos uma recupera&ccedil;&atilde;o nos pre&ccedil;os, resultado direto da recompra. Mas, se o n&uacute;mero vier abaixo de 150 mil, o sinal ser&aacute; p&eacute;ssimo: significa que, mesmo recomprando parte das posi&ccedil;&otilde;es, o mercado n&atilde;o reagiu. E quando o impasse ser&aacute; resolvido? Boa pergunta &mdash; s&oacute; Trump sabe, e talvez nem ele.<\/p>\n<p>Os mercados t&ecirc;m um talento especial &mdash; quase uma voca&ccedil;&atilde;o divina &mdash; para fazer seus participantes pensarem na dire&ccedil;&atilde;o errada. Ficam baixistas na baixa e altistas na alta, como se o gr&aacute;fico fosse um espelho da emo&ccedil;&atilde;o. Amplificam o pessimismo quando tudo j&aacute; caiu e ignoram qualquer fator que possa dar suporte aos pre&ccedil;os. &Eacute; o velho comportamento de manada, travestido de an&aacute;lise.<\/p>\n<p>No entanto, h&aacute; uma lei n&atilde;o escrita &mdash; e infal&iacute;vel &mdash; que o mercado insiste em esquecer: pre&ccedil;os baixos s&atilde;o o melhor rem&eacute;dio para pre&ccedil;os baixos. Se o atual patamar se mantiver ao longo do pr&oacute;ximo ano, veremos um corte dr&aacute;stico nos tratos culturais, no uso de defensivos e de fertilizantes, o que pode comprometer seriamente a safra seguinte. J&aacute; vimos esse filme: em 1999\/2000, com o a&ccedil;&uacute;car despencando para 4 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, a produ&ccedil;&atilde;o do ano seguinte encolheu 17%.<\/p>\n<p>E aqui vai o detalhe que muda tudo: naquela &eacute;poca, o Brasil respondia por 35% a 40% do trading flow mundial. Hoje, essa fatia supera 60%. Traduzindo: uma queda relevante na safra 27\/28 seria o equivalente a tirar o alicerce do mercado global.<\/p>\n<p>H&aacute; outros fantasmas rondando o setor. Apontam-se culpados &mdash; etanol de milho, juros extorsivos, e todo o elenco coadjuvante que j&aacute; atuava no ano passado. Mas a verdade &eacute; que boa parte dos sustos vem de dentro de casa. As empresas precisam modernizar seus processos de decis&atilde;o, parar de reagir ao mercado e come&ccedil;ar a planejar o risco. Urgentemente. Uma pol&iacute;tica de risco robusta n&atilde;o &eacute; luxo; &eacute; estrat&eacute;gia de sobreviv&ecirc;ncia. Ela deve priorizar o retorno ao acionista, sim &mdash; mas sem abrir m&atilde;o de oportunidades de remunera&ccedil;&atilde;o que, muitas vezes, significariam um EBIT acima de 40%, desperdi&ccedil;adas por decis&otilde;es tomadas na euforia de quem achava que o c&eacute;u era o limite. O problema &eacute; que o mercado sempre lembra que o c&eacute;u tamb&eacute;m tem teto.<\/p>\n<p>E o que pode acontecer agora? O d&eacute;j&agrave; vu de sempre. Em tempos de pre&ccedil;os baixos, algumas usinas v&atilde;o cair na tenta&ccedil;&atilde;o dos acumuladores, acreditando garantir margens melhores. A&iacute; os fundamentos mudam, os pre&ccedil;os sobem&hellip; e o hedge vira armadilha. A hist&oacute;ria se repete como farsa matem&aacute;tica: fazem as mesmas coisas esperando resultados diferentes. Spoiler: n&atilde;o funciona &mdash; e nunca funcionou.<\/p>\n<p>E, para completar a semana, senti no ar um leve cheiro de dan&ccedil;a das cadeiras. Nada confirmado, claro &mdash; mas o perfume est&aacute; forte demais pra ser coincid&ecirc;ncia.&nbsp; A conferir.<\/p>\n<p>Nosso colaborador Marcelo Moreira A&ccedil;&uacute;car d&aacute; sua vis&atilde;o: o vencimento mar&ccedil;o-26, como indicado na semana passada, rompeu os 15 centavos de d&oacute;lar por libra-peso e encerrou a 14.97 centavos de d&oacute;lar por libra-peso! O &uacute;ltimo &ldquo;suspiro do morto&rdquo; ocorreu na ter&ccedil;a-feira quando o mar&ccedil;o-26 negociou na m&aacute;xima da semana a 15.82 centavos de d&oacute;lar por libra-peso. Nos 3 dias seguintes novas m&iacute;nimas foram sendo testadas (15.10\/15.03 e 14.93 centavos de d&oacute;lar por libra-peso) e o sentimento do mercado &ndash; ap&oacute;s a semana do sugar Dinner &ndash; continua pessimista com analistas estimando um superavit no curto prazo entre 3-5 milh&otilde;es de toneladas e para a pr&oacute;xima safra 26\/27 uma produ&ccedil;&atilde;o ao entre 610-630 milh&otilde;es de toneladas de cana e com NY podendo buscar os 13 centavos de d&oacute;lar por libra-peso em breve.<\/p>\n<p>Bom final de semana.<\/p>\n<p>Arnaldo Luiz Corr&ecirc;a<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana em que o a&ccedil;&uacute;car tomou conta de S&atilde;o Paulo &mdash; eventos, encontros, conversas de corredor e muito burburinho &mdash; Nova York serviu o contraponto amargo. Refletiu, dia ap&oacute;s dia, as nuvens pesadas formadas a partir das narrativas sombrias que circularam pelos sal&otilde;es. 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