{"id":12885,"date":"2026-08-21T00:00:00","date_gmt":"2026-08-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/archerconsulting.com.br\/artigos\/narrativas-nao-pagam-margem\/"},"modified":"2026-08-21T23:13:34","modified_gmt":"2026-08-21T23:13:34","slug":"narrativas-nao-pagam-margem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archerconsulting.com.br\/pt\/narrativas-nao-pagam-margem\/","title":{"rendered":"NARRATIVAS N\u00c3O PAGAM MARGEM"},"content":{"rendered":"<p>O mercado de a&ccedil;&uacute;car entrou numa fase em que fundamentos, fluxo e posicionamento come&ccedil;am a apontar na mesma dire&ccedil;&atilde;o e, como normalmente acontece quando uma mudan&ccedil;a de cen&aacute;rio encontra muita gente do lado errado do barco, come&ccedil;am tamb&eacute;m a aparecer narrativas tentando explicar por que o mercado n&atilde;o deveria estar onde est&aacute;. O outubro\/26 chegou a negociar a 18.26 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, m&aacute;xima dos &uacute;ltimos 27 meses, antes de encerrar a 17.60. Depois de tanto tempo discutindo excesso de oferta e pre&ccedil;os deprimidos, talvez seja prudente olhar para o que efetivamente mudou antes de concluir simplesmente que &ldquo;subiu demais&rdquo;.<\/p>\n<p>A &Iacute;ndia &eacute; um bom come&ccedil;o. O governo anunciou medidas para conter a forte eleva&ccedil;&atilde;o do pre&ccedil;o dom&eacute;stico do a&ccedil;&uacute;car, que passou de \u20b948.18\/kg em 20 de julho, equivalente a aproximadamente 22.75 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, para \u20b955.70\/kg em 20 de agosto, equivalente a cerca 26.00 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, considerando uma taxa de c&acirc;mbio pr&oacute;xima de \u20b995 por d&oacute;lar. A produ&ccedil;&atilde;o da atual safra, inicialmente estimada pelos Estados produtores em 34.3 milh&otilde;es de toneladas, agora &eacute; esperada em apenas 30.6 milh&otilde;es, afetada por doen&ccedil;as na cana e excesso de chuvas. Nova D&eacute;lhi atribui a alta tamb&eacute;m ao aumento da demanda antes das festividades (s&atilde;o quatro antes da safra), ao aperto da oferta mundial e &agrave; especula&ccedil;&atilde;o e reten&ccedil;&atilde;o de estoques por alguns participantes.<\/p>\n<p>A resposta foi contundente: limites aos estoques de dealers e grandes consumidores, fiscaliza&ccedil;&atilde;o dos estoques das usinas, recomenda&ccedil;&atilde;o para antecipar a moagem para 15 de outubro e, mais importante para o mercado internacional, autoriza&ccedil;&atilde;o para importar, sem tarifa, 1 milh&atilde;o de toneladas de a&ccedil;&uacute;car bruto. H&aacute; alguns meses discutia-se quanto a&ccedil;&uacute;car a &Iacute;ndia poderia colocar no mercado mundial. Agora discutimos a&ccedil;&uacute;car entrando na &Iacute;ndia. N&atilde;o &eacute; exatamente uma mudan&ccedil;a irrelevante.<\/p>\n<p>E a preocupa&ccedil;&atilde;o com oferta n&atilde;o termina ali. Na Tail&acirc;ndia, as estimativas v&ecirc;m sendo revistas para baixo. De acordo com a Czarnikow, a produ&ccedil;&atilde;o deve ficar em 9.8 milh&otilde;es de toneladas em 2026\/27, diante das chuvas abaixo da normalidade, dos problemas com White Cane Leaf Disease (uma doen&ccedil;a que provoca perda de produtividade), dos pre&ccedil;os pouco remuneradores da cana e do risco de um El Ni&ntilde;o trazer condi&ccedil;&otilde;es ainda mais secas. O &nbsp;USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) trabalha com queda de aproximadamente 16% na produ&ccedil;&atilde;o tailandesa em 2026\/27. E o risco clim&aacute;tico aumentou: um El Ni&ntilde;o forte tende justamente a reduzir as chuvas na &Iacute;ndia e na Tail&acirc;ndia.<\/p>\n<p>Na Europa, o quadro tamb&eacute;m encolheu. A estimativa mais recente coloca a produ&ccedil;&atilde;o da Uni&atilde;o Europeia em aproximadamente 14.9 milh&otilde;es de toneladas em 2026\/27, quase 2.8 milh&otilde;es abaixo da safra anterior. A redu&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea plantada com beterraba j&aacute; apontava nessa dire&ccedil;&atilde;o, e as condi&ccedil;&otilde;es de seca e calor acrescentaram outro fator de risco. Algumas estimativas s&atilde;o ainda menores: de acordo com a Czarnikow, a produ&ccedil;&atilde;o da UE-27 pode ficar em 13.9 milh&otilde;es de toneladas.<\/p>\n<p>No Brasil, por sua vez, surgiu um elemento importante do lado do etanol. O Congresso aprovou o PLP 114\/2026, agora aguardando san&ccedil;&atilde;o presidencial, estabelecendo que qualquer redu&ccedil;&atilde;o tribut&aacute;ria ou subven&ccedil;&atilde;o aos combust&iacute;veis f&oacute;sseis dever&aacute; preservar a vantagem competitiva dos biocombust&iacute;veis. O texto prev&ecirc; ainda subven&ccedil;&atilde;o de R$1.2 bilh&atilde;o ao etanol hidratado e permite compensa&ccedil;&atilde;o de at&eacute; R$750 milh&otilde;es por meio de cr&eacute;ditos de PIS\/Cofins, de acordo com informa&ccedil;&otilde;es do Senado Federal.<\/p>\n<p>Talvez mais importante que os valores seja o precedente. Se houver interven&ccedil;&atilde;o para reduzir artificialmente o pre&ccedil;o da gasolina, o etanol dever&aacute; ter sua competitividade preservada. Isso mant&eacute;m aberta a alternativa econ&ocirc;mica da cana para o biocombust&iacute;vel e, portanto, acrescenta uma vari&aacute;vel que n&atilde;o pode ser ignorada quando se projeta a disponibilidade futura de a&ccedil;&uacute;car brasileiro.<\/p>\n<p>Enquanto os fundamentos mudam, a estrutura do mercado tamb&eacute;m merece aten&ccedil;&atilde;o. Os fundos aparecem agora comprados em 77,737 contratos, equivalentes a aproximadamente 3.95 milh&otilde;es de toneladas. Depois de terem carregado uma posi&ccedil;&atilde;o vendida expressiva, os fundos viraram a m&atilde;o. E quando um mercado acostumado a contar com a venda dos fundos passa a contar com sua compra, a din&acirc;mica muda.<\/p>\n<p>H&aacute; ainda uma pe&ccedil;a especialmente interessante no mercado de op&ccedil;&otilde;es. A concentra&ccedil;&atilde;o de calls em aberto imediatamente acima dos pre&ccedil;os atuais entre 18.00 e 20.00 centavos existem 76,729 calls em aberto, equivalentes a aproximadamente 3.90 milh&otilde;es de toneladas de a&ccedil;&uacute;car. E chama particularmente a aten&ccedil;&atilde;o o pre&ccedil;o de exerc&iacute;cio de 20 centavos, sozinho, com nada menos que 26,381 calls, aproximadamente 1.34 milh&atilde;o de toneladas.<\/p>\n<p>Isso n&atilde;o significa, evidentemente, que 3.90 milh&otilde;es de toneladas ter&atilde;o necessariamente de ser compradas em futuros. N&atilde;o sabemos pela posi&ccedil;&atilde;o em aberto quem est&aacute; comprado, quem est&aacute; vendido, quanto dessa exposi&ccedil;&atilde;o j&aacute; est&aacute; protegida e qual o delta das posi&ccedil;&otilde;es. Mas a concentra&ccedil;&atilde;o &eacute; grande o suficiente para transformar essa faixa de pre&ccedil;os numa regi&atilde;o que merece aten&ccedil;&atilde;o especial.<\/p>\n<p>Se uma parcela relevante dessas op&ccedil;&otilde;es de compra estiver vendida por participantes que fazem hedge din&acirc;mico, a aproxima&ccedil;&atilde;o dos respectivos pre&ccedil;os de exerc&iacute;cio aumenta o delta das op&ccedil;&otilde;es e pode exigir compras progressivas de futuros. E a&iacute; surge uma din&acirc;mica interessante: quanto mais o mercado sobe, maior pode ser a necessidade de comprar futuros para ajustar o hedge; essas compras, por sua vez, podem acrescentar press&atilde;o compradora ao pr&oacute;prio mercado. &Eacute; o conhecido efeito de gamma hedging. Com apenas 25 dias para o vencimento das op&ccedil;&otilde;es e volatilidade impl&iacute;cita ao redor de 34%, a combina&ccedil;&atilde;o de pre&ccedil;o, tempo e concentra&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&otilde;es torna essa regi&atilde;o particularmente sens&iacute;vel.<\/p>\n<p>Nesse ambiente, come&ccedil;am a surgir an&aacute;lises afirmando que a alta &eacute; exagerada, que vai sobrar a&ccedil;&uacute;car e que os fundamentos n&atilde;o sustentam esses pre&ccedil;os. Pode ser que estejam certas. A&ccedil;&uacute;car &eacute; um mercado suficientemente cruel para recomendar humildade a qualquer um que tenha certeza demais.<\/p>\n<p>Mas tamb&eacute;m existe no mercado uma velha pr&aacute;tica de falar em defesa da pr&oacute;pria posi&ccedil;&atilde;o. Quando posi&ccedil;&otilde;es vendidas importantes come&ccedil;am a sofrer e chamadas de margem chegam diariamente, fica perigosamente f&aacute;cil confundir desejo com realidade. Em vez de adaptar a posi&ccedil;&atilde;o aos fatos, tenta-se adaptar a narrativa &agrave; posi&ccedil;&atilde;o. O mercado, infelizmente, n&atilde;o costuma demonstrar solidariedade.<\/p>\n<p>E h&aacute; um alerta ainda mais importante para as usinas. Com a recupera&ccedil;&atilde;o dos pre&ccedil;os, j&aacute; aparecem conversas sobre recomprar fixa&ccedil;&otilde;es realizadas anteriormente para tentar vender novamente mais acima. Esse &eacute; um erro cl&aacute;ssico &mdash; e historicamente muito caro.<\/p>\n<p>Uma fixa&ccedil;&atilde;o feita dentro de uma pol&iacute;tica de hedge cumpriu sua fun&ccedil;&atilde;o. Ela protegeu margem, or&ccedil;amento ou fluxo de caixa dentro das condi&ccedil;&otilde;es existentes naquele momento. Desfaz&ecirc;-la porque agora acreditamos que o mercado continuar&aacute; subindo significa transformar uma decis&atilde;o de gest&atilde;o de risco numa nova aposta direcional. &Eacute; exatamente o tipo de comportamento que costuma funcionar algumas vezes, criando uma perigosa sensa&ccedil;&atilde;o de genialidade, at&eacute; o mercado inverter e apresentar a conta. Lembre do que aconteceu em 2023.<\/p>\n<p>Se uma usina acredita que existe potencial adicional de alta, h&aacute; uma solu&ccedil;&atilde;o muito mais disciplinada: mant&eacute;m-se a fixa&ccedil;&atilde;o e compra-se uma op&ccedil;&atilde;o de compra fora do dinheiro. O custo da op&ccedil;&atilde;o passa a ser conhecido e limitado, preserva-se o pre&ccedil;o j&aacute; protegido e, ao mesmo tempo, recupera-se participa&ccedil;&atilde;o numa eventual alta. O que n&atilde;o faz sentido &eacute; renunciar a uma prote&ccedil;&atilde;o j&aacute; conquistada para tentar acertar novamente o mercado. Hedge n&atilde;o deveria ser desfeito simplesmente porque, olhando pelo retrovisor, poderia ter sido realizado a um pre&ccedil;o melhor.<\/p>\n<p>&Iacute;ndia importando, Tail&acirc;ndia e Europa produzindo menos, Brasil preservando institucionalmente a competitividade do etanol, fundos agora l&iacute;quidos comprados e uma concentra&ccedil;&atilde;o relevante de calls imediatamente acima do mercado formam uma combina&ccedil;&atilde;o que merece respeito. Nada disso garante que o a&ccedil;&uacute;car v&aacute; a 19, 20 ou 21 centavos. Mercados n&atilde;o oferecem garantias.<\/p>\n<p>Mas talvez este seja justamente o momento de lembrar duas regras simples. Narrativas n&atilde;o pagam chamadas de margem. E uma prote&ccedil;&atilde;o bem-feita n&atilde;o deve ser desmontada apenas porque apareceu a esperan&ccedil;a de vender mais caro amanh&atilde;.<\/p>\n<p>Mozart, Einstein e Dickens tiveram filhos de quem ningu&eacute;m jamais ouviu falar &mdash; a genialidade, definitivamente, n&atilde;o &eacute; heredit&aacute;ria. J&aacute; a burrice demonstra not&aacute;vel fidelidade gen&eacute;tica, como comprovou o senador em sua cruzada contra o E32. Nesse quesito, ao menos, a sucess&atilde;o est&aacute; garantida.<\/p>\n<p>Bom final de semana<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Arnaldo Luiz Corr&ecirc;a<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mercado de a&ccedil;&uacute;car entrou numa fase em que fundamentos, fluxo e posicionamento come&ccedil;am a apontar na mesma dire&ccedil;&atilde;o e, como normalmente acontece quando uma mudan&ccedil;a de cen&aacute;rio encontra muita gente do lado errado do barco, come&ccedil;am tamb&eacute;m a aparecer narrativas tentando explicar por que o mercado n&atilde;o deveria estar onde est&aacute;. 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