{"id":12945,"date":"2026-09-11T00:00:00","date_gmt":"2026-09-11T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/archerconsulting.com.br\/artigos\/o-acucar-no-banco-do-carona\/"},"modified":"2026-09-11T22:06:31","modified_gmt":"2026-09-11T22:06:31","slug":"o-acucar-no-banco-do-carona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archerconsulting.com.br\/pt\/o-acucar-no-banco-do-carona\/","title":{"rendered":"O A\u00c7\u00daCAR NO BANCO DO CARONA"},"content":{"rendered":"<p>A semana come&ccedil;ou com o lado da oferta dando o tom. Na ter&ccedil;a-feira, a Thai Sugar Millers Corporation cortou a previs&atilde;o de produ&ccedil;&atilde;o tailandesa 2026\/27 para menos de 10 milh&otilde;es de toneladas (ante 12 milh&otilde;es na safra anterior), combinando a seca ligada ao El Ni&ntilde;o no nordeste do pa&iacute;s &mdash; regi&atilde;o respons&aacute;vel por cerca de 45% da produ&ccedil;&atilde;o nacional &mdash; com a migra&ccedil;&atilde;o de &aacute;rea para a mandioca, cujo pre&ccedil;o anda mais convidativo. Como a Tail&acirc;ndia &eacute; a segunda maior exportadora mundial e a ISO (Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do A&ccedil;&uacute;car) j&aacute; projeta d&eacute;ficit global de cerca de 260,000 toneladas para o ciclo, o corte refor&ccedil;ou o quadro de aperto. No mesmo dia, o &iacute;ndice de a&ccedil;&uacute;car da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Alimenta&ccedil;&atilde;o e a Agricultura (FAO) mostrou salto de 11.9% em agosto, a 106.4 pontos &mdash; a maior alta entre todos os itens do &iacute;ndice de alimentos &mdash;, refletindo a quebra europeia (a Comiss&atilde;o cortou a previs&atilde;o 2026\/27 em 19%, para 13.4 milh&otilde;es de toneladas, por conta da seca), o risco clim&aacute;tico asi&aacute;tico e a manuten&ccedil;&atilde;o do plano indiano de importar a&ccedil;&uacute;car bruto com isen&ccedil;&atilde;o de imposto. N&atilde;o por acaso, o a&ccedil;&uacute;car em NY acumula alta de cerca de 20% no ano e teve o melhor agosto desde 2010 (+21.5%), quadro que levou um banco americano a manter recomenda&ccedil;&atilde;o comprada, com alvos de 17 centavos por libra-peso h&aacute; um par de meses em tr&ecirc;s meses e 19 centavos em doze.<\/p>\n<p>A partir de quarta, por&eacute;m, quem assumiu o volante foi o petr&oacute;leo. Com o agravamento do conflito no Golfo &mdash; que j&aacute; se arrasta por seis meses &mdash;, a refinaria de Jazan da Saudi Aramco (400,000 barris por dia) atingida pela segunda vez em um m&ecirc;s e o tr&aacute;fego pelo Estreito de Ormuz reduzido a cerca de 10 embarca&ccedil;&otilde;es por dia, o Brent rompeu a barreira psicol&oacute;gica dos US$ 100 por barril na quarta-feira (101.21, +3.36%) e chegou a negociar a US$ 108 na semana (o WTI, a US$ 102), acumulando alta semanal de 11%, antes de devolver 3% na sexta, depois que o Financial Times noticiou negocia&ccedil;&otilde;es de chanceleres do Oriente M&eacute;dio por uma tr&eacute;gua tempor&aacute;ria com o Ir&atilde; para reabrir a passagem pelo estreito.<\/p>\n<p>Mesmo com a corre&ccedil;&atilde;o, o petr&oacute;leo fechou a semana acima de US$ 100 pela primeira vez desde meados de maio. Para o nosso mercado, a leitura &eacute; direta: petr&oacute;leo caro significa paridade do etanol ainda mais favor&aacute;vel no Centro-Sul, mais cana desviada do a&ccedil;&uacute;car e oferta f&iacute;sica mais enxuta &mdash; din&acirc;mica que j&aacute; aparecia nas exporta&ccedil;&otilde;es brasileiras de agosto, 27% menores na compara&ccedil;&atilde;o anual.<\/p>\n<p>O contrato futuro de NY respondeu na mesma toada: o out-26 subiu de 18.22 centavos por libra-peso na quarta a 18.40 na sequ&ecirc;ncia e atingiu a m&aacute;xima da semana a 18.88 &mdash; superando as resist&ecirc;ncias de 18.48, 18.67 e 18.77 indicadas no coment&aacute;rio anterior &mdash;, mas o reflexo do recuo do petr&oacute;leo na sexta foi imediato, com o vencimento encerrando a 18.15 centavos por libra-peso. O mar&ccedil;o-27, que chegou a negociar na m&aacute;xima de 19.90, fechou a 19.15 &mdash; confirma&ccedil;&atilde;o de que a correla&ccedil;&atilde;o com o petr&oacute;leo segue forte nos dois sentidos.<\/p>\n<p>No meio do caminho, tr&ecirc;s sinais de aten&ccedil;&atilde;o: Primeiro, a posi&ccedil;&atilde;o dos fundos: segundo a ISO, os especuladores inverteram cerca de 120,000 lotes vendidos no fim de julho para mais de 132,000 lotes comprados em 1&ordm; de setembro &mdash; o equivalente a 12.7 milh&otilde;es de toneladas &mdash;, movimento que explica boa parte da alta de 13% no pre&ccedil;o m&eacute;dio ISA de agosto, para 17.40 centavos por libra-peso; Segundo, o Paquist&atilde;o, fiel ao seu padr&atilde;o err&aacute;tico: a estatal TCP abriu leil&atilde;o internacional para exportar cerca de 108,000 toneladas de a&ccedil;&uacute;car branco importado no ciclo passado e agora sobrando em estoque &mdash; o mesmo pa&iacute;s que j&aacute; havia liberado 790,000 toneladas em exporta&ccedil;&otilde;es e depois autorizado at&eacute; 500,000 toneladas em importa&ccedil;&otilde;es no mesmo ciclo, reflexo de estimativas de demanda pouco confi&aacute;veis; as propostas v&atilde;o at&eacute; 28\/9, data que vale acompanhar como poss&iacute;vel gatilho de ru&iacute;do de curto prazo. Terceiro, a &Iacute;ndia: apesar da cota tarif&aacute;ria e da prorroga&ccedil;&atilde;o do prazo de importa&ccedil;&atilde;o, os volumes seguem economicamente invi&aacute;veis &mdash; das cerca de 260,000 toneladas comprometidas por refinarias portu&aacute;rias, apenas alguns milhares de toneladas entraram de fato no mercado dom&eacute;stico, j&aacute; que o a&ccedil;&uacute;car importado processado custa acima de \u20b955 por quilo (26 centavos de d&oacute;lar por libra peso) antes da log&iacute;stica, acima do pre&ccedil;o interno, que recuou para a faixa de \u20b944-50 (20-23 centavos de d&oacute;lar por libra peso).<\/p>\n<p>A ISO ir al&eacute;m do relato dos n&uacute;meros e decretar que os pre&ccedil;os est&atilde;o \"desconectados dos fundamentos\" &eacute; muito estranho. An&aacute;lise de mercado faz parte do mandato da ISO, &eacute; verdade &mdash; mas h&aacute; uma diferen&ccedil;a entre uma consultoria privada emitir opini&atilde;o e um organismo intergovernamental de 85 pa&iacute;ses, financiado e governado inclusive por grandes consumidores e importadores com interesse &oacute;bvio em pre&ccedil;os mais baixos, carimbar com selo quase oficial que o mercado subiu demais. Um ju&iacute;zo desses nunca &eacute; totalmente isento de leitura pol&iacute;tica &mdash; e pode acabar influenciando o comportamento que diz apenas descrever. Seja como for, o dado em si merece aten&ccedil;&atilde;o: posicionamento comprado dessa magnitude deixa o mercado vulner&aacute;vel a uma corre&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica se os fundos resolverem realizar lucros &mdash; motivo suficiente para quem ainda n&atilde;o fixou aproveitar os repiques.<\/p>\n<p>No campo t&eacute;cnico, Marcelo Moreira aponta que, no curto prazo, o out-26 encontra resist&ecirc;ncias a 18.48, 18.84, 18.88 e 19.15 centavos por libra-peso, com suportes importantes a 17.90, 17.67, 17.16, 16.92, 16.31 e 15.33 centavos por libra-peso &mdash; mapa que ganha relev&acirc;ncia extra numa semana em que o mercado mostrou o quanto sobe e desce ao sabor do petr&oacute;leo.<\/p>\n<p>Em resumo: fundamentos apertados em m&uacute;ltiplas origens, petr&oacute;leo turbinando o mix etanol e fundos pesadamente comprados &mdash; combina&ccedil;&atilde;o que sustenta os pre&ccedil;os, mas tamb&eacute;m concentra os riscos. A recomenda&ccedil;&atilde;o da semana se manteve inalterada: n&atilde;o acelerar vendas sobre fixa&ccedil;&otilde;es j&aacute; feitas, aproveitar repiques para elevar os hedges da safra 2026\/27 e monitorar de perto Ormuz, hoje o principal risco de baixa embutido nos pre&ccedil;os. Os fundos estavam comprados em 160,551 contratos no dia 8 de setembro, um acr&eacute;scimo de 28,000 em uma semana.<\/p>\n<p>Ao longo dos &uacute;ltimos meses, este coment&aacute;rio semanal insistiu numa tese que, na &eacute;poca, soava quase teimosa. Em meados de abril, quando NY n&atilde;o conseguia ultrapassar a barreira dos 14 centavos de d&oacute;lar por libra-peso, escrevemos que aquele n&iacute;vel \"n&atilde;o remunera 10 de cada 10 produtores de a&ccedil;&uacute;car no planeta\" e que era \"dif&iacute;cil encontrar base s&oacute;lida\" para acreditar em quedas adicionais. Em maio, com o a&ccedil;&uacute;car negociando cerca de 300 pontos abaixo do custo total FOB Santos, repetimos que \"pre&ccedil;os persistentemente abaixo do custo acabam produzindo consequ&ecirc;ncias\" e que faltava apenas um gatilho para tirar o mercado daquela faixa deprimida. No final de junho, quando o pessimismo havia contaminado praticamente todo o setor, lembramos que \"o pior sentimento costuma aparecer muito pr&oacute;ximo dos piores pre&ccedil;os\" e que a pr&oacute;pria curva futura j&aacute; embutia uma recupera&ccedil;&atilde;o gradual, sinal de que o excesso n&atilde;o permaneceria indefinidamente.<\/p>\n<p>Foi com essa convic&ccedil;&atilde;o que, semana ap&oacute;s semana, recomendamos aos consumidores industriais que aproveitassem o per&iacute;odo de extrema depress&atilde;o dos pre&ccedil;os para alongar suas compras o m&aacute;ximo poss&iacute;vel, e alertamos os produtores de que pre&ccedil;os entre 13 e 14 centavos de d&oacute;lar por libra-peso dificilmente seriam realidade para a safra 2027\/28. Em julho, afirmamos que j&aacute; hav&iacute;amos visto o pior desta fase de baixa e que \"os extremos raramente duram para sempre\". N&atilde;o se tratava de adivinha&ccedil;&atilde;o, mas de aritm&eacute;tica simples: quando o mercado negocia abaixo do custo de produ&ccedil;&atilde;o do maior exportador mundial, a oferta responde, mais cedo ou mais tarde. Quem estruturou compras de longo prazo naquele momento provavelmente est&aacute; satisfeito hoje. Quem esperou pre&ccedil;os ainda menores incentivados por conhecidos Cavaleiros do Apocalipse descobriu, mais uma vez, que o mercado n&atilde;o costuma avisar quando chega ao fundo.<\/p>\n<p>Anote a&iacute;: nos dias 17 e 18 de novembro, a Archer Consulting promove o Curso Avan&ccedil;ado de Futuros, Op&ccedil;&otilde;es e Derivativos de Commodities Agr&iacute;colas &mdash; presencial, em S&atilde;o Paulo, das 9 &agrave;s 17 horas, em local a ser informado posteriormente. 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